06 janeiro 2007
OS PRIMEIROS SETE MESES DE VIAGEM, E O QUE VIRÁ A SEGUIR
Ao fim de seis meses a viajar pela América Latina, estou de regresso ao Brasil, para reencontrar os meus familiares e amigos que cá residem, e a minha mãe, que aqui se encontra temporariamente.
Na primeira semana passada no Brasil, em Araxá, no estado de Minas Gerais, a chuva foi abundante e constante. Segundo as notícias, tem-se registado um excesso de pluviosidade, sobretudo no estado de Minas Gerais e no vizinho Espírito Santo.
À parte os inconvenientes naturais deste tempo húmido, aproveito para conviver com a família, descansar e planear melhor as próximas etapas da minha viagem pelo mundo.
O Natal foi passado em casa de familiares que residem nos arredores da capital de Minas Gerais, Belo Horizonte.
Entre adultos e crianças, com estas excitadas pela perspectiva dos presentes, pudemos recordar momentos passados em África, em Angola, de onde partimos há mais de trinta anos atrás.
Naturalmente, também relatei experiências vividas nos últimos meses, nos oito países visitados na América Latina.
Gastronomicamente, apreciámos bacalhau, leitão e caldeirada de cabrito (esta última uma tradição angolana).
Logo após o Natal, parti para São Paulo, de autocarro (cerca de oito horas de viagem), para lá ficar por breves dias, cedendo finalmente à tentação de visitar a maior cidade do Brasil, e uma das maiores metrópoles do planeta.
A chegada a São Paulo revela aquilo que esperava: uma enorme área urbana, cuja periferia é ocupada por bairros degradados, pobres, que coexistem com muitos "motéis", uma instituição brasileira que identifica estabelecimentos hoteleiros que servem exclusivamente para acolher pessoas que pretendem um lugar onde praticar sexo, normalmente com ambientes fantasiosos, e nomes a condizer.
Ainda ao entrar em São Paulo, o autocarro passa por um acidente automóvel com vítimas mortais, prenúncio de lugar de risco.
Por sugestão do Alexandre, amigo paulista residente em Portugal, fico alojado num apartamento no Bairro Vila Madalena. Este bairro, onde o Alexandre viveu antes de partir para Portugal, é uma área residencial aprazível, com uma boa oferta de comércio e restauração. Nesta área, refiro o Bar/Restaurante Bossa Nueva, localizado nas imediações do edifício onde me hospedo. Com um ambiente descontraído, oferece boa comida e bebidas, e música ao vivo, com excelentes músicos, privilegiando o estilo bossa nova, fazendo jus ao nome da casa.
Neste local reencontro outros amigos paulistas, a Ida e o João, meus vizinhos em Portugal, com os quais passo um serão agradável. A Ida, que passa mais tempo em São Paulo que em Portugal, diz-me que tem saudades das terras lusas.
Voltando ao Alexandre, que também está de momento em São Paulo, para passar férias e as Festas da época, pelo que temos encontro marcado, o que se torna fácil, já que somos vizinhos por alguns dias. Com ele e com os meus primos Paula e Paulo de Araxá, que também aqui se encontram por alguns dias, tenho a oportunidade de conhecer um pouco desta grande metrópole.
A minha primeira escolha é o Museu da Língua Portuguesa
( http://www.museudalinguaportuguesa.org.br/ ) inaugurado já em 2006, localizado numa parte do edifício da estação ferroviária da Luz, na área central de São Paulo.
Para lá chegar, caminhamos pelas ruas que circundam o Mercado Municipal, que fervilham de pessoas em correrias características das grandes metrópoles.
Esta área é conhecida pela grande oferta comercial, tanto de lojas como de vendedores ambulantes.
Para além da vida comercial, destaca-se a degradação urbana, não apenas nos edifícios, mas também no que respeita à limpeza dos espaços públicos, que deixa muito a desejar. Os dois locais atrás referidos são excepções ao estado de abandono desta área da cidade.
O Museu da Língua Portuguesa, com uma grande afluência de público no dia em que o visitámos, talvez por estarmos num período de férias escolares e familiares, revelou-se bastante interessante pelo conteúdo, mas uma decepção pela fraca organização dos serviços de apoio.
Quanto ao Mercado Municipal, grande e cuidado, nele se encontra uma enorme variedade de produtos alimentares, onde não faltava o bacalhau seco, anunciado como sendo do Porto. No entanto, o destaque vai para as frutas do Brasil e doutras regiões do mundo (nesta época, sobressaiam as cerejas do Chile).
Para além dos locais de venda de produtos alimentares frescos, existe no mercado uma quantidade de restaurantes que oferecem comidas de "boteco", termo que no Brasil identifica os bares, ou tascas, que são uma atracção local.
Num outro passeio, visito o Instituto Butantan, entidade especializada na produção de antídotos para venenos de répteis, para além de algumas vacinas.
Para além da vertente técnica, o Instituto Butantan, localizado numa área ampla com muita vegetação, oferece ao público uma excelente mostra de répteis vivos, assim como informações acerca das actividades científicas do instituto.
Neste período passado no Brasil, pude apreciar uma faceta pouco conhecida da música brasileira, fora do Brasil. Refiro-me à música sertaneja, extremamente popular, sobretudo em regiões rurais do Brasil.
Em três ocasiões presenciei festas nas quais predominou este género musical, e a forma entusiasmada como as pessoas vibram com ele.
Quanto ao estilo de dançar, digamos que não é dos mais elegantes, se comparado com outros.
Mas, o que mais despertou a minha curiosidade foi o facto de maioritariamente os intérpretes mais populares de música sertaneja serem pares, normalmente masculinos. Quanto a nomes, há para todos os gostos mas, quase sempre reflectem o perfil do público fiel a este género musical. Aqui ficam alguns exemplos: Tonico & Tinoco, Chitãozinho & Xororó, Milionário & José Rico,
Caju & Castanha e Rosa & Rosinha (esta última é também uma dupla masculina, que se apresenta sempre vestida de cor-de-rosa).
Em jeito de balanço do que vivi nos últimos sete meses, e perspectivando o futuro: nesta altura, sinto-me simultaneamente cheio de memórias de grandes experiências vividas neste período, e saturado de andar com a bagagem que transporto atrás de mim. Mas, como não existe uma situação ideal, dou-me por muito satisfeito pela opção de vida que elegi, pretendendo continuar a percorrer o mundo, embora de forma mais selectiva que até agora.
Assim, prevejo para os próximos meses o seguinte: antes do final de 2006, deixarei o Brasil, partindo para os EUA. Neste país, apenas tenciono visitar amigos que residem no estado da Florida, após o que deverei viajar para a Califórnia, provavelmente para São Francisco, para de lá partir, finalmente, para o país que mais desejo visitar, a Nova Zelândia.
Depois de tanto tempo de preparação e viagem, confesso estar ansioso por chegar ao país da "longa nuvem branca", designação dada pelos Maori ao país onde chegaram antes dos europeus.
Se chegar à Nova Zelândia antes de Fevereiro, talvez por lá fique até Abril, o que me deixa pouco mais de um mês para concluir a volta ao mundo, antes de expirar o prazo de um ano, regressando a Portugal.
De facto, como disponho dum título de transporte, já pago, que me permite regressar a Portugal até ao início de Junho de 2007, é isso que penso fazer, mesmo que entretanto decida mudar o rumo da minha vida.
Se assim for, depois da estada na Nova Zelândia, vou apenas fazer uma breve visita à Austrália, e à África do Sul, ambas para rever amigos residentes nestes países.
A experiência de viver em viagem permanente é diferente de tudo o que tinha vivido até agora.
Ao longo deste período, conheci outros viajantes de longo curso que têm também percorrido o mundo, para melhor o conhecerem ou, para melhor se conhecerem a si próprios.
Um destes casos, o casal australiano Tara e Joshua, que conheci há cerca de sete meses, no início da minha viagem, em Atins, no litoral do Maranhão, Brasil, finalizou há poucas semanas a sua memorável peregrinação pelo mundo. Esta, durou aproximadamente um ano e meio.
Como dizia o Joshua numa mensagem recente, ainda demorará algum tempo até se readaptarem a uma vida sedentária.
P.S. – Desde a estada no Panamá que não publiquei mais selecções de fotografias dos países visitados posteriormente.
Tal deve-se ao facto de ter esgotado a capacidade do serviço utilizado até então, PICASA.
Nesta altura, estou a avaliar alternativas para poder partilhar convosco as minhas memórias visuais da viagem. Em breve, espero poder resolver esta situação.
31 julho 2006
Do avião em que viajei até Foz do Iguaçu, observo a paisagem, e vejo o leito dum rio largo, o Iguaçu, de trajecto sinuoso, que corre de oriente para ocidente, a sul do qual só se vislumbram campos agrícolas. A norte, como se o leito do rio servisse de fronteira, tudo o que a vista alcança é uma floresta densa.
É este o cenário nas proximidades de Foz do Iguaçu. Na verdade, o que aqui me traz, como à quase totalidade dos visitantes estrangeiros, é a riqueza natural desta região, consubstanciada no Parque Nacional do Iguaçu, no interior do qual se encontram as Cataratas do Iguaçu, património natural da humanidade.
O Parque está dividido entre os territórios do Brasil e da Argentina (na verdade, existem dois parques, cada um gerido por um dos dois países), que aqui se tocam, para além do Paraguai, que não possui qualquer parcela do Parque.
Estes três países aqui vizinhos, estão separados pelos leitos dos dois rios principais que cruzam a região, o Iguaçu, que poucos quilómetros depois de se despenhar nas cataratas se junta ao Paraná.
Gerido pelo IBAMA, o Parque brasileiro tem uma organização modelar: os visitantes são recebidos numa única entrada, que inclui para além das habituais unidades comerciais e serviços de apoio, um centro de informações de carácter pedagógico, com uma excelente exposição sobre a origem do Parque, os seus recursos hídricos, e as espécies vegetais e animais que nele vivem, para além das cataratas, a principal atracção do Parque.
Para se ter uma ideia da riqueza deste território natural, deixo uma informação sucinta sobre a fauna que habita o Parque.
Aves: mais de 300 espécies
Borboletas: 200
Répteis: 40
Peixes: 70
Quanto à floresta nativa que cobre a quase totalidade do Parque, embora majestosa, ela é hoje apenas uma amostra da que no passado cobria a região correspondente ao estado do Paraná, no qual se encontra o Parque.
No parque brasileiro passei um dia. Caminhei no único percurso aberto aos visitantes, que tem cerca de 1.5 km de extensão (recomendado para o período matinal), para o qual somos levados de autocarro. Ao longo deste, seguindo o leito do rio, vamo-nos apercebendo da dimensão das cataratas, em semicírculo, com cerca de 2.700 metros de extensão. Normalmente, toda esta extensão é preenchida com 275 cascatas, com alturas variáveis entre os 40 e os 80 metros.
A origem destas cataratas remonta a cerca de 225.000.000 de anos atrás, por um fenómeno vulcânico que provocou um derrame de lava basáltica.
O nome do rio e das cataratas, Iguaçu, é de origem Guarani, e significa “água grande”. Os Guarani, povo indígena que aqui vive há menos de um milénio, tem uma lenda acerca da origem das cataratas, fantasiosa, como todas as lendas.
Em 1542, um oficial castelhano que na altura percorreu o Rio da Prata em direcção ao Paraguai, terá sido o primeiro europeu a observar esta maravilha da natureza, tendo na ocasião feito um relato empolgado do que viu.
Mas, devido a uma seca, nesta altura as grandiosas cataratas do Iguaçu estão reduzidas a uma expressão mínima. Dizem-me que o caudal actual é o menor registado desde 1978.
Voltando ao percurso no parque brasileiro, por ser bastante panorâmico, apercebo-me da ausência da água nas escarpas do lado da Argentina. Contudo, no limite do percurso está o ponto mais espectacular das cataratas, chamado de Garganta do Diabo. Aqui, a quantidade de água que se despenha do plano superior do rio para o inferior, é ainda suficiente para impressionar os visitantes. A propósito destes, surpreendo-me com a quantidade, explicada pelo facto de, quer no Brasil quer na Argentina, estarem a decorrer férias escolares. Assim, apesar de haver muitos estrangeiros, a maioria dos visitantes neste período do ano são brasileiros e argentinos.
Dos três dias que passei nos parques, aquele em que havia mais gente, no lado argentino, disseram-me que entraram cerca de 5.500 pessoas.
Após a visita ao parque brasileiro, tive ainda a oportunidade para visitar um parque de aves, privado, situado junto à entrada do Parque Nacional.
Embora nos parques das cataratas se encontrem aves com alguma frequência, em liberdade, no Parque das Aves podemos vê-las, em cativeiro, em melhores condições. Aparentemente, as aves aqui expostas são bem tratadas, nos limites possíveis da vida em cativeiro.
Aqui existem inúmeras espécies, quer desta quer doutras regiões. As que mais chamam a atenção são as mais coloridas, como os papagaios, araras e tucanos. Alguns destes deixam-se mesmo acariciar pelos visitantes, o que os torna alvo de mais atenção.
Tendo-me posteriormente mudado para a cidade argentina, Puerto Iguazu, passei dois outros dias a percorrer diversos passeios no parque argentino.
Este está igualmente bem organizado, e os visitantes podem utilizar um pequeno comboio que os transporta a vários pontos do parque, a partir dos quais seguem a pé para os percursos assinalados. Destes, destaco dois: o da Garganta do Diabo, que do lado argentino termina quase em cima da cascata, a uma curta centena de metros de distancia, ao nível superior do rio. Esta perspectiva é muito diferente da que se tem do lado do Brasil, onde o percurso termina a uma distância bastante maior da cascata, e a um nível inferior.
Voltando à plataforma final do percurso da Garganta do Diabo, na Argentina, que deve ser visitado à tarde, e o qual fiz por duas vezes, permite ocasionalmente um espectáculo extraordinário, que tive a felicidade de presenciar, aquando da minha primeira visita: refiro-me à presença de pequenas aves, chamadas em castelhano “vencejos de cascada”, aparentemente só existentes neste parque, parecidas com as andorinhas, tanto na forma como no tamanho. O que estas pequenas aves têm de extraordinário é que, nidificam e vivem quase sempre por detrás das cortinas de água das cascatas, e quando estão próximas, voam vertiginosamente, em bandos (com centenas de indivíduos), como se executassem danças sincronizadas, nas proximidades das cascatas.
O outro percurso feito por mim que relevo, é o Macuco, cujo nome é proveniente de uma outra ave aqui existente. Este é um percurso bastante mais longo que os restantes, com cerca de 3.500 metros para cada lado, cujo piso é em terra, e sem qualquer apoio logístico. Isto significa que, ao entrarmos nele, ficamos por nossa conta e risco no meio da selva. Foi o que fiz, tendo caminhado neste local durante cerca de três horas, tal como algumas dezenas de outros visitantes, com os quais me cruzei, bem como algumas outras espécies animais. Este percurso culmina num ponto elevado, do qual temos uma vista ampla sobre a selva e o rio Iguaçu, já depois das cataratas. Neste ponto, existe uma pequena cascata, agora quase seca, com um lago.
A propósito dos percursos definidos para os visitantes nestes parques, no da Argentina, os principais são em plataformas metálicas, perfuradas, sobrelevadas em relação ao terreno.
Neste ambiente propicio à tranquilidade, para além da pressão humana que nalgumas épocas do ano é grande, identifiquei um factor de desequilíbrio, que é o de helicópteros que aqui voam com visitantes, cujo ruído dos motores é claramente incómodo. De referir que estes apenas existem no território brasileiro.
À parte os passeios descritos, outros existem, organizados por empresas privadas. Os mais atraentes são os de barco, pelo rio mas, devido à seca, quase todos estão cancelados, já que o nível de água do rio está demasiado baixo.
Outra atracção desta região, no Brasil, que não visitei, é a grande barragem hidroeléctrica de Itaipu, situada a poucas dezenas de quilómetros depois das cataratas, no rio Paraná. A produção de energia eléctrica desta barragem satisfaz cerca de 25% das necessidades de todo o Brasil, e mais de 90% do Paraguai, países responsáveis pelo projecto.
Acerca dos dois rios principais da região, o Iguaçu e o Paraná, de referir que são povoados por alguns peixes de grande envergadura. Os mais conhecidos, por serem servidos pelos restaurantes da região, são o Surubi e o Dourado. Qualquer deles atinge frequentemente um peso de várias dezenas de quilos, e mais de um metro de comprimento.
Provei ambos, e o meu preferido é o Surubi, peixe saboroso, de carne consistente, e sem espinhas.
A propósito de gastronomia, tive esta semana o meu primeiro teste de carne argentina: sem que tivesse sido previamente planeado, almocei num dos restaurantes do Parque, em regime de buffet. Dele fazia parte a “parrilla”, churrasco correspondente ao rodízio do Brasil. A qualidade da carne era muito boa, pelo que já estou a pensar em novos testes, esses sim, previamente planeados, em Buenos Aires.
Deixei para último lugar, nesta região, as duas cidades onde estive. Tanto Foz do Iguaçu, no Brasil, como Puerto Iguazu, na Argentina, são cidades sem encanto particular. A primeira é bastante maior e mais populosa que a segunda mas, ambas parecem sobreviver à sombra do que a natureza proporcionou à região, e que aqui traz a maioria dos visitantes: as cataratas.
Ambas as cidades são caracterizadas por estarem em área fronteiriça, com influências culturais óbvias, e com canais comerciais que servem os residentes dos três países vizinhos. Neste aspecto, o Paraguai parece ser o que melhor explora as oportunidades comerciais, por isenções fiscais, o que faz com que exista contrabando de mercadorias nas fronteiras.
Previamente exclui o Paraguai do meu roteiro de viagem, e aqui ouvi várias referências de riscos para aqueles que lá se deslocam, nesta fronteira.
Do Paraguai, apenas vi o que se observa do local onde a Argentina tem o seu marco de fronteira, junto à confluência do rio Iguaçu com o Paraná, do qual também se observa o Brasil. Que me lembre, esta é a primeira fronteira tripla em que estive.
Agora, depois de 52 dias passados no Brasil, deixei o mundo da lusofonia e entrei no do castelhano. Espero melhorar os meus conhecimentos desta língua, já que nos próximos meses a vou utilizar diariamente.
Depois desta imersão na natureza, vou voltar aos ambientes urbanos, desta vez numa metrópole de classe especial:
Buenos Aires, aqui vou eu!
24 julho 2006
À chegada a Florianópolis, aguardava-me o Luis Veiga, amigo, do tempo em que a minha vida profissional dependia da fotografia.
O Luís, fotógrafo profissional, é casado com a Rosana, arquitecta, e vivem em Florianópolis há menos de três anos, depois de terem residido alguns anos na Europa, inclusive em Portugal.
Instalado em casa deles, na parte insular da cidade, saímos para um primeiro passeio pela ilha. O tempo está chuvoso, e a visibilidade má.
Paramos para almoçar no extremo sul da ilha, num restaurante, no interior do qual encontramos bandeiras de Portugal e dos Açores.
Alguém me identifica como português, e logo aparece o proprietário, que nos fala apaixonadamente, da sua relação com Portugal, e particularmente com os Açores, de onde regressou recentemente.
Aqui, começo a perceber um pouco das origens dos povos que vivem nesta região do Brasil. Primeiro, se excluirmos os verdadeiros nativos, também chamados índios, foram portugueses dos Açores que aqui chegaram, começando o povoamento do sul do Brasil. Mais tarde, também vieram outros imigrantes europeus, particularmente italianos e alemães.
Por razões que desconheço, estas comunidades fixaram-se nos estados do sul, mantendo muitas tradições dos seus países de origem.
Assim, ao percorrermos a região, cruzamo-nos com pessoas que parecem europeias, com arquitectura de igual influencia, e com nomes a condizer.
Florianópolis é a capital do estado de Santa Catarina, e uma cidade vista como modelo para o Brasil do futuro. O crescimento demográfico da cidade, nos últimos dez anos, foi claramente superior ao da média das capitais estaduais do país.
Hoje, a maioria da população é constituída por pessoas vindas de outros estados, em busca da ordem e segurança que já não existe noutras urbes.
O progresso tem o seu preço, e dizem-me que o mercado imobiliário é dos mais caros do Brasil.
A cidade apresenta-se como numa crise de crescimento, entre o antigo e o novo. O seu centro ainda parece de uma cidade provinciana, com comércio antiquado e modos de vida relaxados mas, novas construções rodeiam-no, como que a marcarem os novos tempos.
Sendo que a cidade se espraia entre a Ilha de Santa Catarina e o continente, é na ilha que estão os principais pólos de interesse que atraem residentes e visitantes. Estes são sobretudo praias, e tudo o que lhes possa estar associado.
Por estarmos no Inverno, muito brando, não pratiquei aqui a actividade de banhista, mas provei os prazeres de comer e beber à beira-mar.
A propósito, pude comer as ostras locais, cultivadas nalgumas áreas da ilha.
Quanto ao resto, destaco uma visita à Fortaleza de São José da Ponta Grossa, interessante construção militar do século XVIII, edificada em local privilegiado na costa norte da ilha.
Aquando da visita a este local, caminhámos por uma pequena praia nas imediações, até atingirmos um local próximo de um restaurante fronteiro ao mar. Aqui, chamou-nos a atenção um homem que cuidava das redes de pesca de um pequeno barco que se encontrava sobre a areia da praia.
Ao acercarmo-nos dele, fomos recebidos com extrema amabilidade, pelo Luís. Falou-nos da actividade de pescador que exerce há muitos anos, da invulgar fartura de tainha no mar próximo, nas últimas semanas, provavelmente devido a factores climatéricos anormais, e da sua origem portuguesa, dos Açores.
Já depois de muita conversa, o Luís disse-nos, humildemente, ser o proprietário do restaurante anexo.
Apesar de viver próximo do mar, o Luís Veiga é um apaixonado pelo interior do sul do Brasil. Natural do Rio Grande do Sul, desde muito novo calcorreou campos e serras. Como escoteiro, há cerca de 30 anos atrás, cometeu uma proeza: desceu pela primeira vez, a parede do desfiladeiro de Fortaleza, na fronteira dos estados de Santa Catarina e Rio Grande e do Sul.
A aventura, na companhia de dois outros escoteiros, foi atribulada mas, bem sucedida.
O Luís quis mostrar-me um pouco desse mundo: saímos de Florianópolis para sudoeste, até chegarmos à povoação de Urubici, perto da qual se encontra a montanha mais alta do sul do Brasil, em pleno Parque Nacional de São Joaquim. Subimos ao cume do Morro da Igreja, a mais de 1.800 metros de altura, para observar um panorama agreste.
Descendo a montanha, encontrámos o Rio Canoas, ao longo do qual passeámos a pé, num vale ladeado por montes escarpados.
Aqui, tive o meu primeiro contacto com uma árvore característica do sul do Brasil, que se destaca nas paisagens: refiro-me à Araucária Angustifolia, normalmente identificada como pinheiro brasileiro ou, pinheiro do Paraná, que produz umas pinhas enormes e pesadas (cada uma pode atingir vários quilos), dentro das quais se encontram os pinhões, também grandes.
Esta espécie foi quase dizimada durante o século passado, para a indústria da madeira, encontrando-se agora protegida e em recuperação.
Pernoitámos num albergue situado numa propriedade de turismo rural, Rio Canoas – Refúgio de Montanha (wwwriocanoas.com.br), recomendável, não tanto pelo albergue utilizado por nós mas, pelas instalações da Pousada, e pela localização.
À noite, antes de dormir, deleitámo-nos observando o céu estrelado que, pela escuridão da área e a ausência da lua, nos pareceu mais brilhante que nunca.
No dia seguinte, partimos cedo, para nos encontrarmos com um outro amigo comum, o Fernando Bueno, também fotógrafo e gaúcho, tal como o Luís Veiga. O ponto de encontro era o Parque Nacional de Aparados da Serra, já no estado do Rio Grande do Sul.
Infelizmente, deu-se um desencontro, pelo que eu e o Luís visitámos o desfiladeiro de Itaimbezinho, fenda geológica impressionante, com vários quilómetros de extensão, após o que regressámos a Florianópolis.
Despedi-me de Florianópolis e de Santa Catarina, não sem antes rever a Silvana e o Hans, amigos da minha estada em São Luís do Maranhão, que em breve partem para uma estada prolongada na Suiça, terra natal do Hans.
Para concluir a minha estada no Brasil, parto para Foz do Iguaçu, para assistir a um dos grandes espectáculos da natureza: as cataratas de Iguaçu.
17 julho 2006
De autocarro a partir do Rio de Janeiro (cerca de quatro horas de viagem), desloco-me a Parati (que também se pode identificar como Paraty), para completar de algum modo a trilogia portuguesa no Brasil (São Luís, Ouro Preto e Parati).
O percurso costeiro é recheado de paisagens magníficas. O litoral é bastante sinuoso, o que proporciona baías com praias, e muito próximo, montes sucessivos cobertos pela mata Atlântica, pujante de vida. No mar, à vista de terra, inúmeras ilhotas.
Como paisagem costeira, é do mais bonito que conheço!
Estranhamente, algumas dezenas de quilómetros a norte de Parati, à beira-mar, encontra-se uma central nuclear, a única em actividade no Brasil. É claramente um elemento perturbador no belo quadro natural que a região oferece.
A cidade de Parati, tem duas partes, das quais apenas falarei da histórica, a que os nossos antepassados construíram no século XVII, e que foi um porto importante, sobretudo no século XVIII, quando a coroa portuguesa utilizou a sua localização estratégica para dele enviar o ouro extraído em Minas Gerais para Portugal.
Hoje, a cidade orgulha-se de ter um dos mais importantes conjuntos arquitectónicos do período colonial. São vários quarteirões edificados à beira da baía, de casas baixas, com inequívocos traços da arquitectura tradicional portuguesa, embora recheadas de pormenores tropicais, em excelente estado de conservação.
Uma das características desta parte da cidade é que, a sua proximidade com a baía, foi aproveitada para que, na maré-alta, sobretudo no período de lua cheia, que foi o caso de quando lá estive, a água penetrar nas ruas adjacentes à baía, inundando-as por algumas horas. Esta situação foi criada intencionalmente, provavelmente para permitir a limpeza das ruas pelo mar.
Num dos passeios que fiz pelas ruas, coincidindo com a maré-alta, encontrei uma casa à janela da qual se encontrava uma senhora, com a qual conversei, por cortesia. Como a sua casa estava rodeada de água, eu estava no passeio do lado oposto da rua, a senhora disse-me que se encontrava “ilhada”, e que teria que esperar pela descida da maré, para então sair de casa.
Em Parati, para além da parte histórica da cidade, os outros atractivos são o mar, através de passeios de barco pelo litoral, em embarcações tradicionais, com visitas a pequenas ilhas, e as praias das cercanias.
Apesar da tentação dos passeios de barco, bem organizados e certamente interessantes, por falta de tempo, optei por visitar uma localidade próxima, Trindade, que diz ter algumas das melhores praias da região.
De Parati a Trindade são quarenta minutos de autocarro. Lá chegado, caminho até à Praia do Meio, que tem um conjunto de bares que oferecem tudo o que os banhistas exigentes querem, e continuo praia fora, passando por duas trilhas que exigem boas pernas, até atingir uma piscina natural afamada. Lá chegado, constato que só merece a pena o esforço, se fosse na maré-alta. Como não era o caso, apanho um barco que me leva de volta à Praia do Meio, onde me instalo num dos bares. Escolho o “Vagalume do Meio” (recomendável), onde a Ana Paula me serve com delicadeza e atenção, que me fazem sentir bem.
Depois de tomar bons banhos de mar, o apetite leva-me à mesa onde “belisco” aipim (mandioca) frito e uma isca de peixe (bocados de peixe frito).
A praia tem bastantes banhistas, sobretudo brasileiros, já que estamos num período de férias escolares. Ao observá-los, constato que o meu corpo está desactualizado: não tenho tatuagens nem piercings.
De volta a Parati, deixo a Pousada “Mercado de Pouso” (recomendável) para retornar ao Rio, já de noite. A viagem é acompanhada pela lua cheia, que espalha a sua luz difusa no mar.
É o prenuncio de uma noite bem dormida.
No Rio, esperam-me vários amigos(as) que aqui residem. Hospedo-me em casa da Beatriz e do Renato, cariocas, que não via há mais de 10 anos, quando nos conhecemos no Ceará.
A Beatriz e o Renato acabam de se emancipar pela segunda vez já que, depois de criarem quatro filhos, estão agora a viver sozinhos num bom apartamento na área da Lagoa, uma das melhores áreas residenciais do Rio.
Os primeiros encontros com a cidade identificam vários factores importantes: é uma grande metrópole, já com mais de 10.000.000 de habitantes, a topografia do terreno é bastante acidentada, sendo a cidade entrecortada em vários pontos por morros, o que associado à dimensão populacional faz com que existam várias cidades dentro da cidade, sendo que algumas são bairros clandestinos, as chamadas favelas. Quando refiro que algumas das áreas urbanas são bairros clandestinos, falo de centenas deles.
Aliás, este fenómeno que não é exclusivo do Brasil, foi recentemente estudado pela ONU, que prevê que em 2020, o Brasil terá “só” 55.000.000 de cidadãos a residirem em favelas, ou seja, o equivalente a 25% da população do país. Esta percentagem é hoje bastante mais elevada em grandes cidades, como por exemplo no Rio, onde cerca de 50% dos habitantes vivem em condições precárias.
Esta coexistência de várias comunidades de características tão dispares, sobretudo no que respeita à educação e poder económico, provoca claras tensões sociais, visíveis nas grades que cercam os imóveis dos mais favorecidos, as câmaras de CCTV (vulgarmente chamadas de vídeo-vigilância) que estão em todo o lado, os guardas públicos e privados, alguns dos quais fortemente armados, e o comportamento dos cidadãos em geral, para além das noticias veiculadas pela comunicação social, que denunciam diariamente todo o tipo de delinquência e violência no território urbano.
A mim, todos os amigos e conhecidos recomendam muita cautela.
Na verdade, todos os riscos de violência que pairam sobre a cidade fazem com que as pessoas vivam em permanente sobressalto, como que prisioneiras dos seus medos.
A cidade é bela por natureza, de uma beleza invulgar, com o oceano Atlântico de um lado, formando belas baías, com praias para todos os gostos. Do lado oposto, a mata atlântica, densa, de um verde intenso, cobre terras que ainda não foram ocupadas pelo ser humano. De permeio, a cidade, qual selva urbana, cada vez menos atraente, pela força da especulação imobiliária, das soluções urbanísticas de qualidade duvidosa, e pelos desequilíbrios sociais das comunidades residentes.
Apesar da dimensão do espaço urbano e dos factores negativos atrás citados, o estilo de vida carioca apresenta-se relaxado, como que a querer confirmar que aqui, o que importa mesmo são a praia, a música e o futebol (a ordem varia consoante a época do ano).
Do futebol já falei o suficiente. Dos outros factores não. Na busca de experiências musicais interessantes, a Angélica, nova amiga, por via da Beatriz, fala-me num encontro de músicos numa feira que se realiza todos os sábados numa pequena praça perto de sua casa, no bairro de Laranjeiras.
Sendo que estes encontros musicais espontâneos, ao ar livre, são dedicados ao chorinho (género musical brasileiro pelo qual me apaixonei desde que vim pela primeira vez ao Brasil), aproveitei para visitar o local, na companhia de vários amigos, o que se revelou mágico.
Na pequena praça, à sombra de uma frondosa árvore florida (pata de vaca), encontrámos um grupo heterogéneo de músicos, de ambos os sexos e de gerações muito diversas, que se divertiam a tocar música, para deleite de algumas dezenas de espectadores que os rodeavam. Assim se passa uma bela tarde!
A vida no Rio é naturalmente marcada pelas praias, que parecem estar quase à porta de casa, e que mesmo no Inverno, são bastante frequentadas: na companhia do Marcelo, velho amigo carioca, pude conhecer a orla marítima que vai para ocidente, até à praia de Grumari. Em pleno Inverno, deliciámo-nos com banhos de mar na Prainha, onde o Marcelo também faz surf. Confirmei que o meu corpo continua calibrado para as praias tropicais.
Mas o Rio oferece muito mais que belas praias: na área da Lagoa, onde resido, visito o Jardim Botânico, criado em 1808. Com quase 200 anos de vida o jardim apresenta-se magnífico, com centenas de espécies de plantas, com destaque para altíssimas palmeiras imperiais que demarcam as principais alamedas do jardim.
Deste belo parque, a vista alcança o Corcovado, com a estátua do Cristo Rei a encimá-lo. Claro que não pude deixar de lá subir, sabendo de antemão que seria uma visita a um dos miradouros mais famosos do mundo (a visitar à tarde).
De comboio, percorro os 3.824 metros que vão da base ao topo do Corcovado, situado a mais de 700 metros de altitude. A subida e posterior descida, são vertiginosas. Lá no alto, desfruto, em conjunto com muitos outros visitantes, de muitas origens, de uma vista aérea deslumbrante sobre a cidade e arredores.
Igualmente deslumbrante é a vista do Pão de Açúcar (a visitar de manhã), outro miradouro simbólico do Rio, ao qual se tem acesso por teleférico, em duas etapas. Embora mais baixo que o Corcovado, proporciona uma visão panorâmica, tanto do Rio como da entrada da Baía da Guanabara.
A vida no Rio também oferece outras possibilidades culturais interessantes: pude visitar o Museu de Folclore e Cultura Popular, dedicado às Artes Tradicionais/Artesanato, que oferece uma boa panóplia das artes tradicionais de várias regiões do Brasil.
Realce ainda para o Instituto Moreira Salles (www.ims.com.br), instituição privada, dedicada fundamentalmente a projectos nas áreas da fotografia, cinema, artes plásticas, música brasileira e literatura.
Esta instituição está sediada numa bela propriedade que já foi residência da família Moreira Salles, edificada na década de 50, no século XX, de acordo com o estilo modernista.
Aqui, pude visitar uma excelente exposição fotográfica dedicada à obra de um fotógrafo suíço, radicado no Brasil no século XIX. A mostra aborda fundamentalmente o trabalho executado na segunda metade do século XIX por Georges Leuzinger, sobre a área do Rio de Janeiro. Através destas fotografias podemos imaginar quão bela foi a cidade no século XIX, com arquitectura de qualidade, e uma escala adequada à integração na natureza. Infelizmente, a maior parte do património arquitectónico histórico do Rio desapareceu, com a fúria do desenvolvimento urbanístico.
Frente à cidade do Rio, no lado oriental da Baía da Guanabara, encontra-se a cidade de Niterói. Para lá me dirijo, de barco rápido, para visitar a minha amiga de Luanda, Katy.
À medida que o barco se aproxima da costa, apercebo-me que também Niterói tem a sua dose de favelas, que corroem a malha urbana, qual praga incontrolável.
A Katy e o Bernardo, seu companheiro, residem numa área tranquila, numa casa que quase parece um barco, tantas são as referências marítimas e navais que lá se encontram. A razão principal é a do Bernardo ser marinheiro de profissão ou melhor, oficial da Marinha do Brasil.
De Niterói, muitos cariocas dizem que o melhor que ela tem é a vista para o Rio. Não sei se é uma apreciação correcta mas, que as vistas panorâmicas para o outro lado da Baía, onde se encontra o Rio, são magníficas, é verdade.
06 julho 2006
Que o Brasil tem uma ligação especial com o futebol todos sabemos. Assim, quando marquei a viagem para este período, apercebi-me que iria estar no Brasil durante todo o Campeonato Mundial de Futebol, realizado na Alemanha.
Para mim foi um bónus, mesmo não sendo um aficionado deste desporto.
O que encontrei, nos três estados que percorri durante a Copa (como aqui é conhecido), representa a paixão pelo futebol.
Onde quer que estivesse, o futebol acompanhava-me: eram as ruas engalanadas, as lojas idem, e os empregados destas, vestidos com camisolas amarelas e verdes, como se fossem jogar pelo Brasil, eram as conversas com qualquer brasileiro que invariavelmente começavam ou acabavam no futebol.
Havendo jogo da Copa, qualquer jogo, as televisões só passavam futebol, e tinham sempre público. Mas, quando o jogo incluía o Brasil, então a vida das localidades parava, para as pessoas torcerem pelo escrete. Quando digo que a vida parava, parava mesmo, com poucas excepções. Quase todo o comércio e serviços, públicos e privados, encerravam.
Quanto à competição propriamente dita, o Brasil encarou esta prova com excesso de confiança. Quase todos garantiam que o país se sagraria campeão, vendiam-se camisolas onde o título já estava atribuído, réplicas da taça, e faziam-se planos para comemorar uma vitória anunciada.
Até que chegou o dia do jogo com a França. Era apenas mais um jogo, no passeio para a vitória final. Mas, não foi assim e a derrota aconteceu, com tanta naturalidade que todos os brasileiros reconheceram ter sido justa.
O país mergulhou numa depressão psicológica, e a autoconfiança ruiu.
Em simultâneo com o desaire inesperado, surgiu uma nova esperança: afinal, Portugal está apurado para as meias-finais da prova, e o treinador da selecção portuguesa é um brasileiro, Felipão, e um ídolo nacional (foi com ele ao comando do escrete que este ganhou a última copa, há quatro anos atrás).
Ou seja, de um dia para o outro, o Brasil renovou o seu orgulho, passando a apoiar sem reservas, a selecção de Portugal. Oxalá possa corresponder.
Nota: o texto anexo foi escrito antes do jogo de ontem, entre Portugal e França.
Infelizmente, ganhou a França.
Embora não tenha acompanhado os jogos de Portugal, a não ser parcialmente e em diferido, fico com a sensação de que a nossa selecção teve um comportamento digno, e o resultado final, qualquer que seja, será desportivamente positivo.
Tomara que fosse sempre assim!
De Belo Horizonte, viajo por estrada, de autocarro, até Araxá, distante cerca de 400 km da capital do estado, para oeste.
A razão deste passeio ao interior de Minas Gerais é a de em Araxá residirem familiares meus, tios e primos, que vindos de Angola no período da descolonização, se fixaram no Brasil, nesta região.
A estrada entre Belo Horizonte e Araxá percorre terras onduladas, por entre montes e vales. Dou por mim a recordar-me de África, a minha, Angola, onde vivi os meus primeiros 18 anos. São paisagens de uma escala imensa, sem vestígios da presença humana por muitos quilómetros, a terra é vermelha, e nela brotam pequenas formações que reconheço de imediato como colónias de formigas, aqui chamadas cupim, salalé em Angola.
Mais adiante, aparecem plantações de café, tal como nalgumas regiões de Angola.
Outra referência africana, são árvores que aqui se chamam amendoeiras, e que lá se chamavam figueiras da Índia. Aliás, no quintal de minha casa em Luanda, existia uma, alta e frondosa.
Chegado a Araxá, sou recebido pelos meus familiares com carinho particular. Tendo estado com eles cerca de uma semana, redescobri o espírito da vida em família, há muito perdido no meu mundo.
A cidade de Araxá, apresenta-se como uma cidade provinciana, pacata, onde as pessoas ainda deixam as portas de casa abertas, na certeza de que, quem entra é pessoa de bem.
A região é marcada por recursos minerais importantes, sobretudo de nióbio, minério pouco conhecido, do qual o Brasil tem hoje mais de 90% do mercado mundial.
A estada em Araxá foi passada em família, e juntos passeámos pela região: em Uberaba, cidade maior que Araxá, fomos visitar uma feira de gado bovino, caprino e ovino, exemplo da força da criação de gado nesta região do Brasil.
Próximo de Uberaba, em Peirópolis, visitámos um museu dedicado a dinossáurios, instalado numa antiga estação ferroviária. No exterior desta, vi os meus primeiros tucanos em liberdade, assim como papagaios e beija-flores, para além de outras aves para mim desconhecidas.
Em direcção ao estado de São Paulo, visitámos a albufeira de uma barragem, cujo rio faz de fronteira entre os dois estados. Pelo caminho estivemos numa gruta a céu aberto (Gruta dos Palhares), interessante.
Deixo a família para viajar até ao Rio de Janeiro, onde me esperam vários amigos(as). Finalmente, vou conhecer a cidade maravilhosa!
Ao chegar ao Rio, completo o primeiro mês de peregrinação pelo mundo. Estou satisfeito, e sinto-me bem.
27 junho 2006
Depois de uma maratona aérea pelo Brasil, chego a Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, considerada a terceira cidade mais populosa do Brasil.
À minha espera no aeroporto de Confins (o nome provem do facto deste se encontrar longe da cidade) está o meu primo Hernâni, nascido em Angola e residente no Brasil há cerca de 30 anos.
O Hernâni é casado com a Aílce, tendo duas crianças pequenas. Oferecem-me cama no seu apartamento. As crianças estão com a mãe do Hernâni, residente nos arredores de Belo Horizonte.
No dia seguinte à minha chegada, domingo, o Brasil tem o seu segundo jogo no Mundial de Futebol, pelo que é fundamental ficarmos na cidade.
Amavelmente, o Hernâni faz de cicerone e mostra-me alguns locais de interesse.
A cidade, em crescimento acelerado, parece-me pouco interessante, com excepção de áreas restritas como a Praça da Liberdade, com um jardim aprazível, com coreto, onde pontificam árvores para mim desconhecidas, ipês, que estão em flor, mostrando-se exuberantes.
Mais tarde, de volta a Belo Horizonte, visito o Mercado Central. Este é um mercado farto e peculiar, porque nele também existem bares e restaurantes (aqui chamados de botecos) frequentados pelos locais, para beberem muito chopp (cerveja a copo) e comerem petiscos da cozinha mineira.
O que impressiona é o facto de muitos dos bares estarem localizados nos corredores de acesso às áreas tradicionais do mercado, sem espaço para proporcionarem o mínimo de conforto aos seus clientes. Mesmo assim, nestes locais os clientes amontoam-se, literalmente, para beberem e comerem algo, e para confraternizarem, em pé.
Também de interesse é a Feira de Arte e Artesanato, de grandes dimensões, realizada todos os domingos numa das principais avenidas da cidade, fechada ao trânsito para o efeito, junto ao Parque Municipal.
No dia seguinte saio de Belo Horizonte, para Ouro Preto, acompanhado pelo Hernâni, que regressaria a Belo Horizonte ao fim do dia.
A viagem por estrada, demora pouco mais de uma hora. Ao chegarmos a Ouro Preto, encontramos uma cidade que, em termos arquitectónicos, parece ter parado no tempo, localizada numa área de relevo bastante acidentado, rodeada por montanhas. Aliás, a própria cidade está situada a mais de 1.000 metros de altitude.
A irregularidade topográfica associada ao facto de todas as ruas de Ouro Preto terem pavimentos de pedra antiga, faz com que o acto de caminhar nas suas ruas seja um desafio físico.
Comparando com Ouro Preto, poderíamos dizer que a cidade de Lisboa é quase plana.
Apesar do condicionalismo topográfico, a cidade revela-se fascinante, sobretudo pelo património arquitectónico aqui construído a partir do final do século XVII, quando nesta região foi descoberto ouro que, misturado com metal de ferro, se apresentava escuro, o que veio a originar o nome da cidade.
Impressiona o facto de, em terreno tão difícil, se ter edificado uma urbe tão rica, tudo graças ao ouro extraído das entranhas da terra.
O valor deste património foi há muito reconhecido pela UNESCO como de interesse mundial, o que talvez explique o bom estado de conservação da maioria dos imóveis, e a quantidade de lojas dedicadas aos visitantes.
A vida em Ouro Preto é claramente marcada por dois grupos populacionais: os visitantes/turistas, em pequeno número nesta época do ano, e os estudantes universitários (entre 4.000 a 5.000). A cidade tem tradição nesta área, e os estudantes residem maioritariamente em repúblicas (algumas centenas), talvez por influência de Coimbra, nome de um dos largos da cidade.
Fico hospedado numa casa antiga, localizada frente a uma das principais igrejas da cidade, Pouso do Chico Rey (recomendável), onde pago por dia um valor inferior a 30 €.
A casa é agora gerida por um casal do Rio de Janeiro, após a morte recente da anterior proprietária, com 99 anos de idade.
Ao longo dos dias passados em Ouro Preto, dedico-me a conhecer alguns dos edifícios notáveis da cidade, nomeadamente igrejas.
Estas, quase todas edificadas no século XVII, impressionam pela riqueza das decorações, no estilo barroco, denunciando a característica de ostentação da Igreja Católica.
Não sendo o estilo barroco muito de meu agrado, devo reconhecer o extraordinário trabalho de um génio local, na arte da escultura, quer em madeira, quer em pedra.
Refiro-me ao que ficou conhecido como Aleijadinho, filho de um artesão português aqui estabelecido, e provavelmente de uma escrava.
Aleijadinho nasceu no século XVIII, vindo a falecer já no século XIX.
Toda a sua vida profissional parece ter sido dedicada à arte sacra, sendo justamente considerado a referência máxima do barroco mineiro.
Ainda no campo do património, destaco o excelente Museu do Oratório, local onde encontramos toda a espécie destes objectos de culto católico, de variadíssimos tamanhos, formatos e estilos.
No Brasil, as pessoas em geral, primam pela simpatia e sociabilidade.
Aqui em Ouro Preto, encontro algumas com as quais simpatizo bastante: a Fernanda e a Natália, ambas empregadas da casa em que me hospedei. A Natália falou-me orgulhosamente da filha única que está no jardim infantil, e da festa que lá irá decorrer em breve, acreditando ela que a sua filha será eleita a “Rainha da pipoca”.
O senhor José Donato Lessa, que encontrei na sacristia da Igreja do Carmo, sentado numa conversadeira, ou fofoqueira, bancos de pedra que ladeiam as janelas de uma casa. O que me despertou a atenção, foi o facto do senhor Lessa estar a limpar uma coroa da igreja, em prata, antiga. Ao aproximar-me dele, fui recebido com simpatia e extrema educação. Falou-me das suas responsabilidades para com o património da igreja onde trabalha, e do desejo de ser algum dia substituído nessas funções, para dar lugar a pessoas mais jovens. O senhor Lessa tem 92 anos de idade, mantendo uma vitalidade e lucidez notáveis.
O Pedro, pintor autodidata, que vende os seus trabalhos em aguarela e bico de pena, na rua, junto à Praça Tiradentes. O Pedro, homem humilde, de forte personalidade, mostrou-se revoltado pelas injustiças sociais do seu Brasil, onde “a policia só prende os pobres e os pretos”, e “os políticos só têm papo furado”.
A Verônica, jovem estudante-trabalhadora que me recebe com simpatia e disponibilidade no seu local de trabalho, num edifício recém reconstruído na Praça Tiradentes, onde procuro informações para organizar a minha visita a Ouro Preto.
A Verônica, apesar de jovem, revela-se uma pessoa madura, sensivel e inteligente. Fala-me do seu percurso de vida, passado em várias regiões do Brasil, das suas viagens de orçamento apertado a outros países, e do prazer de viajar.
Conta-me da sua experiência de vários anos em Ouro Preto, primeiro como estudante de Turismo, e agora como responsável pela Agenda Cultural de Ouro Preto. Quanto ao futuro, quem sabe, o amor da Verônica vive em São Paulo e as saudades são muitas.
Em Ouro Preto encontro o restaurante mais interessante que pude conhecer até agora no Brasil. Chama-se “Chafariz”, tem a minha idade, e é uma instituição na cidade. Os proprietários, Rosa e Vicente, irmãos, são membros de uma família de origem italiana proprietária de vários espaços comerciais em Ouro Preto. O Vicente recebe-me dizendo que a casa é minha, e apresenta-me um retrato de Fernando Pessoa, de Júlio Pomar, exposto em destaque numa das paredes do restaurante. Este distribui-se por duas amplas salas, decoradas com objectos heterogéneos, que combinam bem entre si.
Quanto à oferta gastronómica da casa, em estilo buffet, é a cozinha mineira em todo o seu esplendor: feijão amigo, feijão tropeiro, tutu, frango ao molho pardo (cabidela), frango com quiabo, torresmos e muitas outras especialidades.
Aqui, pude comer algo inédito para mim, simplesmente delicioso: mousse de pepino.
Para quem queira comprovar, eis a receita do restaurante Chafariz:
6 pepinos grandes, sem semente
6 gelatinas de limão
5 colheres de sopa de maionese
1 molho de salsa
1 cebola média
Dissolver a gelatina em cinco copos de água a ferver, e deixar arrefecer. Juntar tudo e bater na trituradora até ficar em creme.
Colocar num recipiente e colocar no frigorífico, até endurecer.
Estas quantidades são as utilizadas no restaurante, para uma taça grande que é colocada na mesa de saladas.
O meu plano de viagem para Minas Gerais incluía outras cidades históricas, tais como Mariana e Tiradentes.
Quanto a esta última, perdi a esperança de a visitar quando soube que no período em que me seria conveniente ir a Tiradentes, estaria a decorrer um encontro de motociclistas que atrai muitos adeptos de motas.
Mariana, cidade menor que Ouro Preto, está a cerca de 30 minutos desta, em autocarro. É assim que me desloco a Mariana, em dia de mais um jogo do Brasil na Copa.
Encontro uma cidade pacata, a preparar-se para mais um jogo do escrete canarinho. Os monumentos encerram duas horas antes do início do jogo (excepto uma das igrejas), tal como os bancos, e a maioria das lojas.
Passeio pelas ruas cada vez mais desertas, o tempo está chuvoso, pelo que regresso a Ouro Preto. Felizmente que os autocarros não param.
No dia seguinte volto a Mariana, manhã cedo, com o propósito de lá apanhar um comboio para Ouro Preto. Parece confuso, não é?
Mas este não é um comboio qualquer. É uma Maria Fumaça, um comboio a vapor, recuperado para reabilitar uma linha ferroviária há muito abandonada. São 18 km, sempre a subir no sentido em que faço a viagem, com um desnível superior a 300 metros, por entre montanhas, com ravinas abruptas, e dois pequenos rios à vista do comboio.
À vista desarmada, apercebo-me da triste realidade dos rios estarem poluídos. Observo alguns garimpeiros há procura de fortuna, e uma das razões para a poluição destes rios está no mercúrio normalmente utilizado no trabalho de garimpo. Mais tarde, dizem-me que uma outra fonte de poluição reside numa fábrica de alumínio da região.
Poluição à parte, esta viagem no tempo é magnifica. Demora cerca de uma hora, e a Maria Fumaça, de origem Checa, fabricada em 1949, pesando 160 toneladas, consome cerca de 2 toneladas de carvão mineral e 18.000 litros de água.
Este belo passeio é possível graças ao investimento de uma empresa importante nesta região, e no país, a Vale do Rio Doce.
O projecto muito bem executado e concluído recentemente, incluiu a recuperação das estações ferroviárias de Mariana e Ouro Preto, nas quais o público pode usufruir de outras informações e serviços, relacionados com a região e a história ferroviária.
Para quem aqui venha, é um passeio obrigatório.
Ao deixar Ouro Preto, dirijo-me a Congonhas, para me encontrar com o Jorge, meu primo, irmão do Hernâni. O Jorge, engenheiro de profissão, trabalha actualmente na região, regressando a Belo Horizonte no final da semana.
Congonhas é uma das cidades históricas da região, e hoje atrai a atenção dos visitantes praticamente pela Basílica do Bom Jesus de Matosinhos, e dos restantes elementos arquitectónicos e escultóricos associados, localizados num ponto elevado, com vista panorâmica sobre a cidade e terras circundantes.
Esta obra da igreja católica, mais uma, edificada na segunda metade do século XVIII, contou com a colaboração de Aleijadinho, já na fase final da sua vida, com manifestas dificuldades físicas que ampliam o valor da obra por ele aqui produzida.
Dezenas de esculturas em pedra sabão, muito comum nesta região, representam o expoente máximo do génio de um homem que durante uma parte da sua vida sofreu de uma doença, provavelmente lepra, que lhe fez perder os dedos das mãos, e a utilização das pernas.
23 junho 2006
ALCÂNTARA – REVIVER O PASSADO
No século XVII, a colonização do Brasil avançou decisivamente para o norte, motivada em parte pela exploração da cana-de-açúcar.
Nesse período, os nossos antepassados elegeram um promontório na costa do Maranhão, próximo da foz do rio Anil, para edificarem a cidade de Alcântara, que se tornou na capital da região.
Ali foram construídos casarões, sobrados, e igrejas claro, que deram outra vida a um local privilegiado pela natureza.
Hoje, quase 400 anos decorridos, ao chegar de barco (calhou-me o “Bahia Star”, construído há 30 anos atrás nos E.U.A.) vindo de São Luís (cerca de 1 hora de viagem), fico impressionado pela localização magnífica da povoação, sobrelevada relativamente ao mar, com vista panorâmica, e uma pequena ilha (Livramento) a curta distancia.
À medida que subo a encosta, a partir do cais, apercebo-me não só da pobreza da vida humana da actual Alcântara, mas também da degradação extrema de uma boa parte do património arquitectónico da localidade.
Percorro as ruas até atingir a praça principal, ampla, com uma ruína de uma igreja que já foi imponente, um pelourinho, e uma moldura de casarões em estado de conservação razoável.
Mais adiante, caminhando pela sombra, que o sol escaldava, passo frente a duas mulheres sentadas na ombreira de uma porta, supostamente da residência de uma delas. Cumprimentamo-nos, bom hábito que aqui ainda se cultiva, e a conversa nasce espontaneamente.
Uma das duas mulheres, a Miriam, manifesta-se mais comunicativa e perspicaz. Em breve se oferece para me acompanhar a uma visita à vizinha Casa do Divino, local dedicado às Festas do Divino Espírito Santo, que aqui se celebram há séculos, com devoção religiosa e esmero.
Lá, encontramos a alma da Festa do Divino, o Sr. Heidimar, personagem notável de Alcântara. Depois de uma visita curta mas significativa, saímos e a Miriam leva-me a passear pela sua Alcântara. Passamos à porta dela, e diz-me ser vizinha de D. Pedro. Paredes-meias com a casa da Miriam, encontra-se uma ruína de uma casa apalaçada, onde provavelmente teria pernoitado D. Pedro, daí a relação de vizinhança virtual.
Convido a Miriam para almoçar comigo, o que acontece, até porque a intenção dela ir à praia (era dia feriado), gorou-se.
A Miriam é professora e directora da escola local. Diz-me com orgulho, que a escola tem instalações novas, para os cerca de 700 alunos que a frequentam, estando o ano lectivo prestes a começar.
Fala-me da vida em Alcântara hoje, das dificuldades e dos anseios.
Diz-me que há poucos dias receberam a visita do embaixador de Portugal e da esposa. Eu penso que bom seria que Portugal assumi-se alguma responsabilidade para com o seu passado, contribuindo para a recuperação do riquíssimo património que construiu neste canto do Brasil, há muito abandonado.
A Miriam é uma pessoa inteligente. Conta-me histórias interessantes. Fala-me do “boca de lata” que percorre as ruas de Alcântara, anunciando informações de interesse local (como por exemplo, o inicio do ano escolar). Eu explico: já tinha visto viaturas automóveis com potentes sistemas de som a anunciarem mensagens. Até já tinha visto motociclos a fazerem o mesmo trabalho, como aqui. O que eu vi em Alcântara foi uma bicicleta, na qual o ciclista cumpria não só o papel de pedalar em ruas de piso empedrado irregular, mas também lia mensagens dirigidas à comunidade local, através de um sistema de som amplificado, desproporcionado, quer em relação ao meio de transporte, quer ao local, onde impera o silêncio.
Ao fim da tarde, feitas as despedidas, desço para o cais, para regressar a São Luís. Ainda paro numa casa de doces local, onde só se vende um produto. Avisado estava da existência de uma especialidade local, o doce de espécie, espécie de biscoito feito à base de coco. Muito bom.
Despeço-me do Maranhão satisfeito com a escolha deste canto do Brasil, para início da minha peregrinação pelo mundo.
Encontrei um pouco da história de Portugal, não apenas na arquitectura, mas também na vida cultural da região.
A propósito do património arquitectónico de São Luís, tendo conhecido dois arquitectos ali residentes, fiquei a saber que os imóveis do centro histórico podem ainda ser adquiridos por valores inferiores aos que são praticados noutras cidades históricas do Brasil, tais como Olinda e Ouro Preto.
Dizem-me que um sobrado vale hoje entre
Próxima etapa, Minas Gerais.
13 junho 2006
No Maranhão, a cerca de 250 km da cidade de São Luís, encontra-se o Parque dos Lençóis, região remota do litoral norte do Brasil.
Este Parque é a maior atracção turística do estado do Maranhão, logo a seguir à sua capital, São Luís.
O que desperta a atenção dos visitantes é sobretudo a coexistência de dunas de areia com lagoas de água doce, fenómeno raro, senão mesmo único no mundo.
Para lá chegar, viajei por estrada num autocarro confortável, na companhia de novos amigos, a Silvana (brasileira), o Hans (suíço), casal residente em Florianópolis, e o Marc (francês), amigo deles.
A paisagem observada da estrada é verdejante, sobressaindo várias espécies de palmeiras, a saber: buriti (a espécie emblemática da região), ariri, babaçu, carnauba, dendê (dendem em Angola), jussara e tucum.
Chegados a Barreirinhas, principal porta de acesso ao Parque dos Lençóis, deparamo-nos com uma pequena cidade sem eira nem beira, onde imperam os serviços dirigidos aos visitantes do Parque, sobretudo as “Toyotas”, como aqui são chamadas as viaturas todo-o-terreno, utilizadas para o transporte de pessoas na região, e não apenas os visitantes.
Efectivamente, este meio de transporte está monopolizado pela marca Toyota, com os “velhinhos” Land Cruiser, fabricados no Brasil até 2001.
Consultámos um agente de viagens local, Off Road (recomendável), a quem comprámos duas viagens: uma de Toyota às dunas, e outra descendo o rio Preguiças, de barco.
De imediato partimos para as dunas, acompanhados pelo motorista da Toyota e pelo guia, Arnaldo, jovem de 16 anos de idade.
O percurso até ao inicio da área de dunas demora cerca de 50 minutos, em caminho arenoso, sinuoso e alagado, dado estarmos no final da época da chuva ou seja, a melhor altura do ano para se visitar o Parque dos Lençóis.
A perícia do condutor é posta à prova num terreno difícil, feito sem falhas.
O Parque dos Lençóis ocupa uma área total de 155.000 hectares, da qual cerca de 75% são dunas e lagoas.
Chegados à orla das dunas, descemos da viatura e caminhamos. A paisagem é deslumbrante: dunas, não muito altas, a perder de vista, intercaladas com lagoas de água doce, proveniente da chuva, de dimensões variáveis.
As sensações de prazer são diversas: silêncio quase absoluto, apenas interrompido por aves que vivem na área, areia branca e fina como pó, macia e não muito quente, água das lagoas transparente e excelente para nos banharmos, com temperatura ideal para o meu corpo.
Nalgumas lagoas vivem nenúfares, rãs e pequenos peixes que, estes últimos, quando mergulhamos, vêm inspeccionar o nosso corpo, sem receio.
Caminhamos durante algumas horas, brincamos, fotografamos, e despedimo-nos dos Lençóis depois do pôr-do-sol.
Pernoitámos numa Pousada (Sossego do Cantinho – recomendável) à beira rio, fora de Barreirinhas, propriedade de um suíço, há anos residente no Brasil. Sem preconceitos, a verdade é que neste local, embora modesto, existe uma ordem que talvez possa ser atribuída à origem do seu proprietário.
No dia seguinte, partimos cedo, rio abaixo, numa “lancha voadeira”, barco com o casco em alumínio, motor potente (90 cv), com capacidade para 12 passageiros, mais o piloto.
Este é o meio de transporte utilizado apenas pelos visitantes, devido ao preço.
A alternativa para os locais, e para alguns visitantes, são os “barcos de linha”, embarcações em madeira, de porte razoável, que demoram cerca de 4 horas “de relógio” (como se diz por aqui) a percorrer o leito do rio, de Barreirinhas até à foz.
O percurso rio abaixo, ou acima, é muito bonito. O leito do rio tem uma largura que varia entre uns 50 a 150 metros, à excepção de dois atalhos que percorremos lentamente, pela pouca profundidade e por serem estreitos.
Nas margens de vegetação densa, imperam os mangais e palmeiras das mesmas espécies já vistas.
Paramos várias vezes, e numa delas, junto a dunas, também elas com lagoas, local ao qual chamam os Pequenos Lençóis, encontramos quatro meninas que acompanham os visitantes, como guias, na esperança de que aqueles lhes possam proporcionar uma vida menos difícil. A Ana Cléia, a Cleilce, a Marilene e a Maria Helena têm entre 9 e 13 anos de idade, embora fisicamente todas aparentem ser mais jovens.
Emociono-me com elas, particularmente com a Ana Cléia, com a qual estive mais em contacto. Histórias tristes de vida, em local tão belo!
Em Caburé, já próximo da foz do rio, despeço-me dos meus companheiros de viagem, que regressariam a Barreirinhas e a São Luís no próprio dia.
Eu decidi ficar em Atins, povoado nos confins do litoral norte do Brasil, na foz do rio Preguiças.
O que me faz escolher Atins é a vontade de conhecer melhor o Parque dos Lençóis, e o desejo de estar num local isolado, junto ao mar.
Para chegar a Atins, viajo num bote de um pescador, que trajava uma camisola do Futebol Clube do Porto, movido por um motor de 7 cv, ruidoso.
Cerca de uma hora depois de termos saído de Caburé, já farto do barulho do motor, e do sol abrasador, chegámos ao outro lado do rio, perto de Atins.
Caminhámos até chegar ao povoado, primitivo e desinteressante.
Valeu-me a Pousada Rancho dos Lençóis (recomendável), fora da povoação, local aprazível, despretensioso, tal como o seu proprietário, Buna, maranhense de São Luís, aqui refugiado há muitos anos.
No dia seguinte, na companhia de três outros viajantes, jovens, chego novamente à conclusão que o mundo está transformado numa aldeia global ou melhor, numa miríade delas.
Aqui estava eu, num local ermo do norte do Brasil, com uma australiana, um israelita e um estónio (este de uma espécie rara, já que os estónios são pouco mais que um milhão de seres humanos). Os três encontraram-se em Jericoacoara, área há muito divulgada como um paraíso de praia tropical no Ceará (que julgo ser um logro).
Vai daí, resolveram continuar a viagem juntos, creio que para pouparem algum dinheiro.
Este trio acompanhou-me numa visita guiada pelo Buna, ao volante da sua Toyota, pelo lado marítimo do Parque dos Lençóis.
Desde já recomendo que, se ao visitarem este Parque magnifico não tiverem tempo para o fazer em ambos os lados, escolham o lado do mar, a partir de Atins.
O percurso desde a Pousada do Buna até ao Parque é feito por terreno plano, aberto e alagado, nesta época do ano.
Em cerca de meia hora atingimos a verdadeira foz do rio, num areal imenso, onde só os pescadores chegam.
No carro não conseguimos chegar junto ao mar, pelo que retrocedemos, para nos dirigirmos para as dunas, situadas a cerca de 1 km de distância do mar.
Antes de lá chegar, paramos num restaurante local (recomendável), da D. Luzia, conhecido pelo carácter dela e pelos magníficos camarões que ela prepara para os clientes (segundo o Buna, os camarões desta área são os melhores do Brasil).
A D. Luzia revelou-se uma mulher interessante. Quando lhe pedi que escrevesse no meu bloco de notas o seu endereço, ela resolveu escrever muito mais e, entre outras frases, terminou, escrevendo que “este é um pidacinho do céu”.
Depois de nos regalarmos com os justamente famosos camarões, demos corda aos pés, descalços, e fomos para as dunas.
Lá chegados, o mesmo espectáculo já visto no outro lado do Parque: dunas e mais dunas, de areia branca e macia, pontilhadas por lagoas tentadoras para o banho.
O valor acrescentado deste lado do Parque é, ter menos visitantes, e estarmos em contacto visual com o mar que, embora longe, está presente.
Chegado o dia do regresso a São Luís, empreendi o mesmo percurso da ida, utilizando uma barcaça de um pescador de Atins, maior que o bote utilizado para lá chegar, para ir até Caburé, onde me encontrei com a “lancha voadeira” que me levou até Barreirinhas.
O curioso é que, tendo eu contratado o barco do pescador para me levar ao outro lado do rio, acabámos por levar mais 16 passageiros, residentes em Atins, que iam a um lugarejo próximo, para participarem numa festa do dia dos namorados, comemorado no Brasil a 12 de Junho.
Notas de rodapé: se passarem em Barreirinhas, não deixem de provar as broas de mandioca, espécie de biscoito feito com mandioca e açúcar. Parecem-se vagamente com os suspiros, até pela cor, e são deliciosas.
As que comi, comprei a um menino na rua, por um preço ridículo, para os nossos padrões.
Disse-me que são feitas pela mãe, a quem enderecei os meus parabéns.
Hoje, 13 de Junho, dia de Sto. António, começam oficialmente as Festas Juninas em São Luís do Maranhão. Por isso, ficarei por cá até ao próximo sábado, quando partirei para Minas Gerais. Antes disso, irei a Alcântara num dos próximos dias. Não, não é a Alcântara de Lisboa mas sim uma cidade histórica do Maranhão, situada a cerca de 1 hora de viagem de barco de São Luís.
Hoje também, o Brasil irá iniciar a sua participação no Mundial de Futebol, na caminhada para o hexa, como dizem, plenos de confiança, os brasileiros.
O jogo começará às 16 horas locais, pelo que os serviços públicos e o comércio, com excepção dos bares e restaurantes, irão encerrar ao fim da manhã.
É uma outra festa!
Pela primeira vez desde que saí de Portugal, estou a utilizar o meu computador num local público, com uma ligação ADSL. O preço por hora é inferior a 1 €.
07 junho 2006
BRASIL - Inicio da viagem - Junho de 2006
Projecto previsto há mais de um ano, amplamente discutido, e razoavelmente planeado, teve agora o seu início, com um voo da TAP entre Lisboa e Fortaleza, Brasil, com a duração de 7 horas.
Ao fazer o check-in no aeroporto de Lisboa, confirmo que levo demasiada carga para que me possa sentir confortável numa viagem que se prevê longa. Uma mala com 33 kg e uma mochila com 11 kg, para além de um saco de mão com peso não controlado. Total, quase 50 kg.
Primeiro objectivo traçado na minha mente: reduzir a carga que transportarei para as próximas etapas.
Premonitoriamente, embarquei no Airbus A310, chamado João XXI, pilotado pelo Comandante Jesus Pereira. Com estes nomes simbólicos a acompanhar-me, previ desde logo um voo tranquilo.
A previsão não só se confirmou como, ainda beneficiei de uma atenção extraordinária por parte de tripulação do avião que, avisada pelo meu amigo Alfredo, me tratou com particular cuidado. Ainda por cima, o chefe da tripulação a bordo é meu vizinho em S. João do Estoril, o que proporcionou uma conversa mais pessoal.
Depois de uma longa escala em Fortaleza, sem sair do aeroporto, apanhei o voo das 2 da madrugada para São Luís, com uma escala em Teresina, capital do estado do Piauí, uma das cidades mais quentes do Brasil, no que à meteorologia concerne.
Chegado a S. Luís por volta das 4.30 da madrugada, hora do Brasil (menos 4 que em Portugal), só queria era chegar ao hotel, para poder descansar.
Escolhi a Pousada Colonial (diária com pequeno-almoço incluído, cerca de 20 €), situada na área central da cidade que, mesmo percorrida de carro à noite, com os olhos a fecharem-se, me pareceu familiar, pela analogia arquitectónica com cidades de Portugal.
Na manhã do dia seguinte, na sala onde o pequeno-almoço é servido, encontro casualmente um brasileiro com quem estabeleço contacto.
O Carlos, natural de Brasília, residente em Toronto, Canadá, é historiador e está cá por um projecto em que participa, sobre a presença de escravos nestas paragens, no tempo colonial.
Apreciámos a companhia um do outro e decidimos sair juntos, para um passeio pedestre pela parte antiga da cidade, considerada património da humanidade pela UNESCO.
Rapidamente me apercebo da inclemência do calor húmido, que me faz lembrar o clima de Luanda, onde nasci e vivi, há muitos anos.
A cidade está estranhamente deserta, o que nos permite caminhar calmamente e observar o que nos rodeia com atenção.
As ruas de pavimento empedrado, sucedem-se com fileiras de casas construídas há muitos anos, com características claramente portuguesas. Muitas delas, têm as fachadas revestidas a azulejo, algumas das quais com padrões que me fazem lembrar edifícios que conheço de Lisboa.
Ao caminharmos, vou-me também apercebendo que uma das razões pelas quais a cidade está despovoada, é a da selecção de futebol do Brasil estar a disputar um jogo treino, para o Mundial, que começará dentro de dias.
É latente a devoção com que o país segue este assunto. São ruas e casas comerciais enfeitadas com adereços verdes e amarelos, são pessoas de idades diversas, e dos dois sexos, que vestem roupas com símbolos nacionais, são crianças que improvisam campos de futebol nas ruas da cidade, são mensagens publicitárias alusivas ao acontecimento, enfim, é toda uma ansiedade que paira no ar.
De tarde, acompanhados por uma assistente do Carlos, residente em S. Luís, vamos visitar duas casas comunitárias, situadas num bairro popular da cidade, onde se está a celebrar a festa do Divino Espírito Santo.
Nas casas das Minas e de Nagô encontramos outro aspecto da vida brasileira, o da conjugação de rituais religiosos e pagãos.
Em ambiente de festa, conjugando a fé religiosa com a música, os participantes convivem alegremente.
Lembro-me das festas homónimas que ocorrem nos Açores, e das semelhanças e diferenças de ambas as versões.
No dia seguinte, estava eu a consultar os serviços locais de informações turísticas, quando vi entrar no local três senhoras de idade respeitável, todas mais velhas que eu.
Apercebi-me que eram estrangeiras e falavam inglês, com sotaque americano. Como nenhuma das funcionárias do posto de turismo falava inglês, ofereci-me para ser o tradutor da conversa.
Depois de prestado o serviço, quis conhecer minimamente as senhoras americanas. Fiquei a saber que estão a percorrer vários países da América do Sul, tendo começado o périplo pela Colômbia, seguindo-se o Peru, Equador e o Brasil, onde irão ficar mais cerca de cinco semanas.
Na véspera tinham feito em autocarro público o trajecto entre Belém do Pará e São Luís, com a duração de 16 horas.
Antes de saírem do posto, fomos agraciados com um licor de maracujá, com o qual fizemos um brinde à vida e ao prazer de viajar.
Mais tarde reencontrei-as numa rua e decidimos jantar juntos, num restaurante conhecido no centro da cidade velha, perto do qual decorreu um espectáculo musical com vários grupos da região. O género musical dominante é o “bumba meu boi”, que é uma fusão do forró, do nordeste brasileiro, e do samba, com figurantes com trajes de fantasia, que interpretam coreografias mais ou menos carnavalescas.
Para surpresa minha, o primeiro grupo que actuou, apresentou-se com um fundo musical português, de Portugal.
O espectáculo desta noite deu inicio a uma temporada festiva que decorre entre os dias de Santo António e de São Marçal, designada de Festas Juninas, a qual é muito popular no estado do Maranhão.
Despedi-me das minhas novas amigas, que no dia seguinte seguiriam viagem para o Parque dos Lençóis Maranhenses, onde eu espero ir dentro de dias.
Encontros como este comprovam que o mundo se está mesmo a transformar numa aldeia global, e que a idade por si só não é impeditiva das pessoas viajarem, mesmo para áreas relativamente desconhecidas.
Ao fim de alguns dias em São Luís, decido visitar o Parque Natural dos Lençóis Maranhenses. Parto amanhã.
