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09 outubro 2005

EUROPA OCIDENTAL – Semana de 3 a 9 de Outubro

Segunda-feira, saio de Beaugency em direcção a Toulouse. Começo por acompanhar o rio Loire até Tours. Das várias estradas disponíveis, a mais interessante do ponto de vista cénico é a do lado sul do rio, muito próxima deste.
Depois de Blois, a paisagem é ainda mais interessante, alternando florestas, pequenas povoações e vistas para o rio.
Paro em Amboise, uma localidade pitoresca, com um dos castelos mais famosos, com o nome da terra. Em Tours, decido continuar a jornada, para já em direcção a Limoges. Aqui chegado ao fim da tarde, sigo viagem para Toulouse, onde chego quase à meia-noite. Para surpresa minha, os hotéis da cidade parecem estar cheios. Consigo encontrar quarto, com vista para a sala de pequenos-almoços do próprio hotel, por 110 euros.

Terça-feira, visito a área urbana antiga de Toulouse, interessante, e deparo-me com uma manifestação de trabalhadores grevistas que desfilam pela manutenção dos seus (ricos) direitos profissionais. Esta greve é nacional, e impressiona-me a capacidade de mobilização dos sindicatos franceses, que levam muitos milhares de pessoas, de vários quadrantes, para um desfile nas ruas. Segundo a imprensa, em todo o país mais de um milhão de cidadãos participaram nas manifestações de rua.
Ao princípio da tarde volto à estrada, a caminho de Pau. Saindo de Toulouse começamos a ter à nossa esquerda a muralha montanhosa dos Pirinéus, que separa a França da Espanha.
Chegado a Pau, encontro um hotel simpático, Montpensier, e deparo-me com uma recepcionista brasileira.
Vou jantar a um restaurante tradicional de Pau, La Goulue, onde pouco depois de eu entrar, chegaram três homens acompanhados por dois cães, sendo que um dos cães, minúsculo, ficou sentado ao colo do dono, não se contendo em tentar comer do prato deste. Com franqueza, tive vontade de sair do restaurante, como forma de protesto pela promiscuidade da situação, mas acabei por ficar e apreciar o ambiente geral.
Depois do jantar, passeei pelo centro da cidade e constatei duas curiosidades: estando Pau numa área climatérica fria, pela proximidade das montanhas dos Pirinéus, encontramos nos jardins públicos uma elevada quantidade de palmeiras. Lá como cá, há uma febre tropical.
Por razão que desconheço, na área comercial da cidade, existe uma quantidade/percentagem elevada de casas de lingerie femininas.

Quarta-feira, pouco depois de acordar, recebo uma notícia indesejável mas, de algum modo previsível: a minha avó, mãe da minha mãe, com 94 anos de idade, faleceu.
Desde há mais de um ano que a vida dela se degradou substancialmente, e por tabela, a da minha mãe, com quem vivia. Agora, a sua vida e sofrimento, terminaram.
Quanto a mim, tenho-a como uma das minhas referências morais, com quem aprendi muito.
Curiosamente, na véspera, dia da sua morte, passei perto de Lourdes, local de peregrinação dos católicos, como a minha avó, onde estive com ela há quase 30 anos atrás, em passeio. Não pude deixar de recordar esse facto, e de desejar que a fé que a acompanhou até agora a protegesse de males maiores.
Triste, constato que no espaço de sete meses perdi duas das três mulheres mais importantes da minha vida, a Ana e a avó Etelvina.
Assim, altero os meus planos de modo a viajar hoje até casa, em Portugal. Como o meu irmão Jorge, residente em Madrid, está interessado em ir também a Portugal para se despedir da nossa avó, combino passar em Madrid e seguirmos para Portugal. Em perspectiva, tenho cerca de 1.200 Km para percorrer hoje. Saio de Pau cerca das 12 horas, começando por percorrer os cerca de 100 Km iniciais, até à fronteira com Espanha, numa estrada de montanha, que atravessa os Pirinéus.
Apesar da pressa, perante a majestade das paisagens que ladeiam a estrada, tenho que as apreciar minimamente, parando algumas vezes.
As belezas proporcionadas pela natureza seduzem-me quase sempre mais do que as que o ser humano produz.
A passagem de França para Espanha faz-se através do túnel de Somport que, com cerca de 9 Km de extensão, é o mais longo que me lembro de atravessar até hoje. Aqui, a segurança é levada a sério. Para além de sinalização rigorosa e limite de velocidade adequado às circunstâncias, as duas extremidades do túnel estão permanentemente vigiadas por especialistas em segurança, que inspeccionam todas as viaturas pesadas que ali passam.
Chegado ao lado espanhol, noto de imediato alterações na paisagem, que passa a ser mais agreste, com menor densidade de vegetação. Verifico também um aumento significativo da temperatura do ar.
Gradualmente, a paisagem vai-se tornando mais árida, a ponto de em breve se parecer com outras paisagens que me são familiares no norte de África, em Marrocos, aqui tão próximo.
Com tudo o que se passa a nível climatérico e de ordenamento dos territórios ibéricos, tudo leva a pensar que, em breve, poderemos vir a ter um prolongamento do grande deserto do Sara, na Península Ibérica.
Vem-me à memória o problema da seca que tem afectado particularmente esta região, e a preocupação que também os franceses demonstram relativamente a este flagelo. Efectivamente, em Paris, constatei que alguns espaços públicos estão privados de água em fontes e repuxos, como medida de contenção dos gastos de água.
Na ocasião, pensei que bom seria que Portugal tivesse uma seca como a que afecta França.
Também me vem à memória uma história recente de amigos meus, a Paula e o Maurício, que receberam em sua casa uma amiga de uma viagem feita em 2004, à Mauritânia, onde esta reside. Quando a mesma se confrontou com o jardim relvado da casa da Paula e do Maurício, disse-lhes que tudo o ali via estava muito distante do conceito de seca e aridez dela. Na verdade, esta portuguesa residente na Mauritânia, vive há vários anos no deserto profundo do Sara, certamente um dos locais mais secos do planeta.
Chego a Madrid ao final da tarde, e encontro o Jorge numa esquina da avenida Castellana, seguindo viagem. Antes da uma hora da madrugada chegamos a minha casa.

Assim, de modo imprevisto, chega ao fim o passeio que planeei pela Europa Ocidental, para visitar alguns amigos.
À parte as impressões já registadas, fica-me a certeza que, comparativamente com os países que agora visitei, Portugal figura como um parente pobre. O termo “pobre” é aqui aplicado não tanto aos aspectos económicos que caracterizam as sociedades mas sim, aos indicadores de educação cívica e moral, e ao nível cultural. Provavelmente, o atraso económico de Portugal no grupo da União Europeia deriva precisamente dos outros indicadores que também nos são desfavoráveis.
Dos poucos países agora visitados, os que mais me agradaram na globalidade foram França e Holanda. Poderia equacionar viver em França, não em Paris mas numa pequena cidade do sul.
Mas esta é uma decisão que terá que ser muito ponderada. Qualquer decisão que me comprometa relativamente à minha vida futura só será tomada depois de eu empreender a viagem à volta do mundo, com início previsto para o primeiro trimestre de 2006, e só depois de visitar a Nova Zelândia, meu actual modelo.

04 outubro 2005

EUROPA OCIDENTAL – Semana de 27 de Setembro a 2 de Outubro

Segunda-feira, fico em casa, para trabalhar. Isso mesmo, o facto de eu ter declarado que estou a caminho da reforma, não impede que trabalhe, ocasionalmente.
Em viagem, se queremos ter uma vida organizada, é necessário dedicar algum tempo a tarefas relacionadas com planeamento e controlo. Para além disto, como sabem, assumi o compromisso de publicar semanalmente no meu blog o relato deste passeio pela Europa Ocidental. Para cumprir este objectivo, para além da escrita diária ou quase, tenho que fazer o trabalho de transferência do texto e das fotografias para o blog.
Se este trabalho fosse feito a partir do meu computador portátil, ligado à Internet, seria coisa para me ocupar no máximo, uma hora por semana. Contudo, tenho constatado que nas casas de amigos que me têm alojado, e que têm ligação à Internet, não consigo utilizar o meu computador. Assim, para evitar deslocar-me a um local público onde o possa fazer, resta-me utilizar o computador da casa.
Nada mais fácil, dada a amabilidade dos meus amigos mas, como acontece em França e na Bélgica, os computadores de série estão equipados com teclados diferentes dos nossos, o que nos baralha.

Terça-feira, vou para Paris, utilizando os transportes públicos que servem a área onde resido. Isto significa cerca de uma hora divididas em três etapas (pedestre, autocarro e comboio), para cada lado.
Passeio-me por áreas já minhas conhecidas: Les Halles, Ile de la Cité, Ile de Saint-Louis e St. Germain. Delicio-me a observar as pessoas, lojas e todos os detalhes que fazem de Paris uma cidade especial, para mim.
Deleito-me com um gelado da casa Amorino, do mesmo nível que os do Santini, em Cascais.

Quarta-feira, tenho o dia reservado para cuidar do meu carro, levando-o a uma oficina, para a revisão dos 60.000 Km. Sendo o meu “companheiro” de viagem um Mercedes, esperava encontrar uma oficina grande e pomposa. Pelo contrário, dou com um pequeno concessionário, num subúrbio desfavorecido de Paris.
Feita a revisão ao carro, que está bem de saúde, aproveito para apreçar o mesmo modelo de carro, novo, em França. Sem me conhecer de lado nenhum, o vendedor apresentou-me um valor inferior em 5.590 € ao que eu paguei há quase três anos em Portugal, sendo que na ocasião me fizeram um preço especial, devido a uma relação de amizade. Nem vou agora dissertar acerca desta e outras incongruências da vida em Portugal, versus noutros países da União Europeia.
O jantar de hoje é em casa do Miguel e da Karine, também com a presença do Rafael, irmão do Miguel, e da companheira deste, Bérangère. Aqui temos dois bons exemplos de integração social: dois jovens de origem portuguesa, que vivem com francesas, em França. Ambos os casais parecem estar bem, também no plano profissional.

Quinta-feira, dedico o dia a passear a pé entre as duas margens do rio Sena, em Paris. Entre as duas margens do rio, encontram-se duas das áreas mais encantadoras da cidade: as pequenas ilhas, Ile de la Cite e Ile de Saint-Louis.
Na primeira está a igreja de Notre Dame, um dos monumentos mais visitados de Paris. Na segunda, entre casas de habitação para milionários e pequenas lojas à moda antiga, situa-se a casa de gelados provavelmente mais famosa de Paris, a Berthillon. Já a conhecia de visita anterior mas, não resisti ao apelo da gula. Embora este templo do gelado tenha hoje forte concorrência, louvo o excelente gelado de chocolate com que me deliciei.
Tive ainda tempo para fazer mais uma descoberta, visitando pela primeira vez a área próxima da Gare ferroviária de Lyon, chamada Viaduc des Arts. Trata-se de uma construção antiga de um viaduto, entretanto reabilitada para espaços comerciais de caracteristicas artesanais. Na cobertura foi instalado um magnifico passeio pedestre ajardinado, o qual se interliga com vários outros espaços urbanos adjacentes ao viaduto. Em suma, um belissimo trabalho de recuperação e integração urbanistica.

Sexta-feira, tenho mais um longo passeio a fazer em Paris. Começo pelo Grand Palais, imponente edifício construído no final do século XIX, para a exposição universal realizada em Paris, em 1900. Este monumento encontrava-se encerrado há cerca de 12 anos, por problemas estruturais, e está a ser alvo de uma recuperação total, a qual só estará concluída em 2007. Custo total do investimento previsto: cerca de 101.000.000 de euros.
Temporariamente, durante cerca de duas semanas, o edifício foi apresentado ao público, praticamente vazio, à excepção de dois magníficos globos terrestres construídos na segunda metade do século XVII, pelo geógrafo veneziano Vincenzo Coronelli, por encomenda francesa. Cada uma das peças tem aproximadamente quatro metros de diâmetro, encontrando-se expostas, suspensas por duas gruas, a poucos metros do chão, com espelhos em cima e em baixo, para melhor serem apreciados.
Para além destas duas magnificas peças, que a partir de 2006 serão definitivamente expostas na Biblioteca de Paris, o gigantesco espaço interior do Grand Palais estava iluminado a preceito (o que pude apreciar numa segunda visita nocturna, com o António), e os visitantes eram brindados com uma banda sonora bastante interessante.
Só para percebermos melhor qual a capacidade que a cidade de Paris tem para atrair público, soube que este acontecimento teve cerca de 20.000 visitantes por dia. Pelo que eu pude observar, cerca de metade destes eram não residentes.
É oportuno dizer que Paris é por si só um íman que atrai permanentemente visitantes dos quatro cantos do mundo, que misturados com a sua já bastante heterogénea população residente, transformam o espaço urbano numa riquíssima rede multicultural.
Um outro exemplo deste fenómeno testemunhei-o numa das galerias subterrâneas do metropolitano (que aproveito para dizer, nos leva a todo o lado, sempre com excelente sinalização), quando fui atraído por música tocada ao vivo, não por um ou dois músicos, mas por um grupo de cinco que tocava animadamente desde um clarinete até um contrabaixo.
Para além dos músicos, ainda estava presente uma acompanhante que seduzia os espectadores espontâneos, como eu, para comprarem CD com música do grupo, profissional da Ucrânia.
Ao fim do dia, o António foi ter comigo à cidade, para jantarmos. Ao acaso, acertámos num restaurante de um português, George Opera, onde comemos e pagámos bem.

Sábado, despeço-me do António e de Paris, definitivamente uma das poucas grandes metrópoles do mundo onde tenho prazer em estar.
Decidi passar mais alguns dias em França, sem a companhia de amigos. Escolhi a região do rio Loire, entre as cidades de Orleans e Tours. Para além de não conhecer esta região, lembro-me que a Ana ficou encantada quando, há muitos anos atrás, antes de nos conhecermos, teve a oportunidade de visitar a mesma, na companhia dos pais e creio, da irmã.
Infelizmente, apesar dela me referir várias vezes o seu encanto pela região do Loire, não pudemos visitá-la juntos. Agora, mais uma vez, levo-a no meu pensamento.
Dirijo-me primeiro à cidade de Orleans mas, é demasiado grande para o meu modelo de bem-estar. Escapo-me rapidamente para o campo, até chegar à pequena cidade de Beaugency, onde procuro abrigo. Encontro-o num pequeno hotel, Le Relais des Templiers, agradável por várias características, de entre as quais a natural simpatia do casal proprietário do hotel.
Para jantar, aceitei uma sugestão dos meus anfitriões e fiquei plenamente satisfeito com a refeição no restaurante Le Relais du Chateau.
Depois de jantar, passeei pelas ruas da povoação e, sem intenção, fui identificando os vários restaurantes locais. Desde franceses a italianos, passando por chineses e outros asiáticos, até marroquinos e turcos, encontrei nesta pequena cidade. Apenas mais um sinal da tendência para a diversificação cultural que varre o mundo.

Domingo, vou fazer um passeio de carro pela região do rio Loire, em direcção à cidade de Blois. Encontrei-a quase deserta, talvez pelas condições meteorológicas adversas. Depois do necessário passeio de reconhecimento, saí de Blois a caminho do Castelo de Chambord, provavelmente o mais prestigiado dos castelos desta região.
Propriedade do estado francês, o castelo situa-se numa vasta propriedade de cerca de 5.500 hectares, dos quais cerca de 1.000, podem ser visitados pelo público, sobretudo a pé e de bicicleta. Próximo do palácio, existe uma aldeia com cerca de 200 habitantes, todos trabalhadores na propriedade.
O palácio em si, para além da sua grandiosidade, reflexo dos gostos e poderes da realeza e seus seguidores, não tem nada a ver com as praças-fortes a que, em Portugal, chamamos castelos.
Antes de regressar ao hotel, pude acercar-me de uma das margens do rio Loire, manso, como quase todos os principais rios europeus, pela acção das barragens.
Pude ainda aperceber-me da existência de uma central de energia nuclear nesta área. Segundo o proprietário do hotel em que me encontro, esta central tem um núcleo com 25 anos de vida, já desactivado, que está a ser “desmontado”. Esta operação é delicada, estando a ser ensaiadas técnicas inovadoras, que poderão vir a ser utilizadas posteriormente noutras centrais.
Vou jantar ao restaurante Le Petit Bateau, onde me delicio com ostras e um petisco que me faz lembrar a minha infância: rim grelhado.

A minha rota leva-me para sul, passando por Toulouse, cidade que ainda não conheço.
Tenciono chegar a Portugal no próximo fim-de-semana, por necessidade e não por vontade.


26 setembro 2005

EUROPA OCIDENTAL – Semana de 19 a 25 de Setembro

Segunda-feira, vou até ao leste da Holanda, passando por Nijmegen, cidade onde eu e a Ana estivemos há bastantes anos atrás, para visitar amigos que na altura lá residiam.
A razão desta minha deslocação é visitar uma dessas amigas, Brigitte, que há poucos anos perdeu o seu companheiro, Jan, por doença semelhante à que vitimou a Ana. A Brigitte decidiu mudar-se para a Alemanha, a algumas dezenas de quilómetros da cidade de Nijmegen. Ela, que é de origem alemã, está satisfeita com a mudança, pela casa que agora tem, melhor que a anterior, e pelo local aprazível em que vive, de características campestres.
Entretanto, a Brigitte encontrou um novo parceiro, Hugo Eisso, amigo de longa data.
Este foi um encontro simultaneamente feliz e triste, pela “presença” da Ana.
Jantámos num restaurante de uma povoação vizinha, e regressei a Roterdão.

Terça-feira, empreendi a viagem entre Roterdão e Bruxelas, cerca de duas horas de carro.
Em Bruxelas, dirigi-me ao escritório do meu amigo Bert Broes, companheiro profissional do tempo do Image Bank, e um dos poucos resistentes à mudança imposta pelos actuais proprietários daquela empresa.
O Bert reside a norte de Bruxelas, em Hove, nos arredores de Antuérpia. Chegados a casa dele sou recebido calorosamente pela Lieve, companheira do Bert, e pelas três filhas, Annelies, Katrien e Astrid.
Hoje é o dia de aniversário da Astrid (15 anos) e vamos jantar a um restaurante nas imediações da casa. O Restaurante Den Conijnsberg nasceu da reconstrução de um moinho antigo, sendo um espaço bastante interessante, ao que corresponde a cozinha ao mesmo nível.
Para além da família Broes e de mim, estão também presentes os namorados das duas filhas mais velhas.

Quarta-feira, tenho a companhia do Bert, da Annelies e da Katrien, e vamos a Antuérpia, onde passamos o dia a visitar a cidade.
Antuérpia é a maior cidade da região da Flandres, onde a língua oficial é a holandesa. Situada próximo da foz do rio Schelde, tem um dos maiores e mais movimentados portos marítimos da Europa.
A parte antiga da cidade, próxima do rio, desenvolve-se à volta da Praça da Grote Markt (Câmara Municipal), bordejada por belos edifícios históricos. Próxima, encontra-se a majestosa catedral e as áreas envolventes preenchidas por inúmeros restaurantes e cafés, sempre com esplanadas exteriores, onde residentes e visitantes se deliciam com as magnificas condições atmosféricas que temos por esta altura do ano, e por uma grande oferta de produtos, com destaque para a cerveja. Aparentemente, a Bélgica tem a maior variedade de cerveja no mundo, na ordem das centenas de marcas.
Estando em Antuérpia, temos que visitar a casa onde o pintor flamengo Rubens viveu uma boa parte da sua vida, no século XVII. A casa é espaçosa, e tem um jardim privado, com uma árvore interessantíssima, que me encantou.
Várias obras do mestre estão expostas, bem como outras de discípulos e contemporâneos de Rubens.
Regressados a casa, passamos o serão em casa, em família.

Quinta-feira, tenho um encontro marcado com o João, amigo de Portugal, estudante de Comunicação/Jornalismo, recém chegado à Bélgica, para aqui viver durante um ano lectivo, em Lovaina, cidade próxima de Bruxelas, conhecida sobretudo pela sua Universidade, a mais antiga da Bélgica.
A Annalies, também ela estudante universitária, acompanha-me, e juntos vamos até Lovaina, onde encontramos o João, a quem entrego a bagagem dele, transportada desde Portugal.
O João alugou um pequeno apartamento, juntamente com um colega e amigo de Portugal, no centro de Lovaina. Com entusiasmo, fala-nos dos seus projectos para este ano especial. Há jovens que me fazem ter esperança num futuro melhor para a espécie humana, e o João é um deles.
O ano lectivo vai começar oficialmente na próxima semana, o que faz com que a cidade ainda não esteja com o ambiente normal, pela ausência da maioria dos estudantes, belgas. No entanto, já se sente a presença de muitos outros estudantes, de variadíssimos países. Segundo o João, este ano, estarão em Lovaina cerca de 600 estudantes estrangeiros, ao abrigo do programa da Europa Comunitária, Erasmus.
Ao fim da tarde regressamos a casa e saio com a Lieve e o Bert, para jantar, numa povoação vizinha, Lier, conhecida sobretudo pela obra de um relojoeiro de nome Louis Zimmer, que legou à cidade onde viveu um património invulgar.
O jantar de bom nível, com vinho português do Douro, ocorreu no Restaurante De Werf.

Sexta-feira, vou a Bruxelas. Depois de passar pelo escritório do Bert, apanho um autocarro para o centro da cidade, desconhecida para mim, onde passeio a pé.
Começo pela Grand-Place, praça faustosa, a lembrar os tempos áureos da Bélgica, país hoje dividido, qual auto-flagelo, por duas culturas (a francesa e a flamenga) que teimam em não cooperar.
A Grand-Place está a abarrotar de gente, dos quatro cantos do mundo. Não me apetece participar nesta orgia do turismo e por isso afasto-me, percorrendo áreas menos movimentadas.
Apercebo-me da presença de muitas casas dedicadas ao chocolate, outra tradição belga. Não resisto a entrar numa, com estilo contemporâneo, e com produtos feitos à base de chocolate, que me deixam os olhos em bico e com água na boca. A Pierre Marcolini – Chocolatier deve ser famosa, pois está cheia de visitantes, sobretudo estrangeiros, particularmente japoneses e norte-americanos. Depois de me deliciar com um gelado de chocolate, saio e regresso ao mundo real.
Ao fim da tarde, apanho um autocarro para me dirigir para casa da Beatriz, filha da minha querida amiga e vizinha Ingrid, e do seu companheiro Mathias, alemão, e dos três filhos, Cristina, Joana e Armando. Gosto da casa deles, fruto da recuperação de um edifício antigo. Após o jantar, regresso à minha casa belga, próxima de Antuérpia.

Sábado, a Lieve e o Bert saem de manhã para passarem o fim-de-semana fora.
Eu decido seguir viagem para sul, em direcção a Paris. Antes de deixar a Bélgica, vou visitar a cidade de Gent, a conselho da Lieve e do Bert.
Gent tem um centro histórico de interesse arquitectónico, e uma vida dedicada ao lazer, com bastante animação. Passeio a pé sem rumo, até ser atraído por música de jazz tocada ao vivo por um grupo de cinco músicos e uma cantora. O local era apropriado para uma paragem de almoço, e aproveitei para entrar num dos vários restaurantes próximos do palco musical,
o Chez Leontine, casa antiga e pitoresca. Não resisti a provar uma das especialidades regionais, waterzooi, sopa rica de peixe e marisco, com legumes, que existe também na versão de carne, com galinha.
Este foi um dos momentos da viagem que merecia ter sido partilhado convosco. Não sendo possível, brindei a todos os meus amigos, com uma boa cerveja belga.
Saí de Gent para Paris, onde cheguei ao fim da tarde, a casa do António, que continua sem a Elisa, a qual ainda está em Portugal.

No domingo, saímos de manhã para fazer compras para o almoço, e passear um pouco.
Regressados a casa, banqueteamo-nos com ostras da costa ocidental de França, queijos da terra e uma tarte de morangos. Tudo acompanhado por um vinho branco da região de Loire.
Como o tempo contínua aprazível, dormimos uma sesta nas cadeiras do jardim.
Mais tarde, vamos a Paris, com o propósito de visitarmos um parque público recente, designado André Citroën, localizado à beira do rio Sena, na área sudoeste da cidade. Estamos perante mais uma boa intervenção de requalificação urbana, que fazem desta cidade um exemplo positivo. Uma das curiosidades deste parque é a de ter um balão de ar quente, que sobe a 150 metros de altura, de onde se desfruta um panorama magnifico sobre a cidade.
Decidimos ir jantar a St. Germain-Des-Prés, área sempre fervilhante de vida.
As possibilidades gastronómicas são muitas, e escolhemos uma casa de crepes.

Com três semanas de viagem, sinto-me bem fora de Portugal, e nem sequer posso dizer que tenha saudades de minha casa.
No entanto, por razões pessoais e profissionais, deverei regressar a Portugal até ao final da primeira semana de Outubro.

12 setembro 2005

EUROPA OCIDENTAL

Nota preliminar: tentarei redigir as minhas impressões, em estilo de diário, embora as publique no blog semanalmente, à segunda-feira, em hora incerta.
Irei destacar as datas, nomes de países e localidades a negro/bold, e os locais (estabelecimentos comerciais, culturais, e outros) a itálico.
Tentarei obter referencias e sugestões de residentes nos locais por onde passar, partilhando-as convosco.

5 de Setembro de 2005: saí de casa pelas 8 da manhã, para iniciar o meu passeio pela Europa Ocidental, aperitivo para outra viagem a realizar pelo menos em 2006, com destino a outras regiões do Mundo.
Parti sozinho (fisicamente), mas acompanhado por muitos dos amigos/amigas que me estimulam e acarinham. Para vós, o meu sincero agradecimento!
Na bagagem, para além das minhas coisas, sempre em excesso, levo pertences de dois amigos, um deles o João, filho da Paula e do Maurício, que vai em breve estagiar na Bélgica, preparando o seu futuro, que eu antevejo e desejo, muito positivo.

Casualmente, faz hoje seis meses que a “nossa” Ana partiu.
É impossível não recordar o facto, todo o sofrimento por que ela passou, para além da nossa vida em comum.
Naturalmente, a tristeza apoderou-se de mim. Chorei enquanto conduzia.

A viagem foi feita com tempo ameno, e muitas viaturas pesadas na estrada. Em Portugal, a paisagem está ferida por incêndios que a têm devastado. Em Espanha, sobressai a ocupação ordenada dos campos, por culturas agrícolas.
Andei depressa, e só parei em Tordesilhas, ao final da manhã, para desentorpecer as pernas, abastecer o depósito com combustível (menos caro que em Portugal), e satisfazer a curiosidade, prestando uma singela homenagem aos nossos antepassados que, de modo visionário, celebraram em 1494, com o Reino de Castela, o Tratado das Tordesilhas. Esta foi, provavelmente, a intervenção estratégica mais importante de Portugal, até hoje.
É fácil concluirmos que, se não fosse aquele acordo, o Mundo teria hoje fronteiras, e talvez culturas, diferentes.

De tarde, mantive o ritmo e cheguei ao País Basco, onde também a morfologia do terreno é muito diferente do resto de Espanha.
Pela primeira vez, desde que saí de casa, a paisagem é maioritariamente verde, e o tempo está encoberto. Sabe bem, depois da seca que assola o resto da península.
Percorridos quase mil quilómetros, decido pernoitar em Donostia/San Sebastian.
A cidade fervilha de vida, e parece-me interessante. Passo a noite numa residência universitária (Olarain) que também aluga quartos a turistas. As instalações são boas e recentes.
Pela excelente reputação da cozinha basca, não resisto a jantar num bom restaurante (Portuetxe). Comi bem, e paguei um valor elevado, cerca de 50 €. A fama tem o seu preço!

6 de Setembro: saio de San Sebastian, a caminho de Paris. Faço cerca de 850 km, com uma única paragem, até me encontrar com o António Domingues, amigo de longa data, residente nos arredores de Paris, numa localidade simpática chamada Mandres Les Roses.
A companheira do António, Elisa, teve que viajar para Portugal, por dever profissional, e está em minha casa.
Saímos para jantar, num restaurante que só serve peixe e marisco. Pusemos a conversa em dia, e regressámos a casa para descansar.

7 de Setembro: o António saiu cedo para o trabalho. Eu, vou para Paris, utilizando os transportes públicos, autocarro e comboio.
Paris é uma das poucas grandes metrópoles do mundo onde me sinto bem. Atrai-me o equilíbrio da cidade, tal como se desenvolveu ao longo dos séculos, e os muitos locais agradáveis onde podemos fruir da cidade. Também me agrada a elegância francesa, para além da língua, que falo com prazer.
Para desfrutar da cidade, começo por me dirigir ao Arco do Triunfo, um dos símbolos de Paris, descendo depois a avenida dos Campos Elíseos. Aqui, encontro-me com as mais diversas etnias do mundo, e ouço falar muitas línguas, entre elas o português nas duas versões mais conhecidas. Esta área de Paris alberga muitas das marcas comerciais de luxo que conhecemos, atraindo a sua clientela. Contudo, mesmo aqui, sente-se a presença dos desfavorecidos da sociedade, pessoas e animais que vivendo no mundo dos ricos são pobres.
Depois das duas maratonas automóveis dos dias anteriores, as minhas pernas reclamam por exercício.
A caminho da Praça da Concórdia, usufruo da sombra (o dia está quente, e estou farto do sol) dos plátanos esculpidos por jardineiros talvez influenciados pelas casas de moda parisienses, e dos castanheiros que já perdem folhas, prenunciando o Outono que se avizinha.
Cruzo a Praça em direcção ao jardim das Tulherias, onde indígenas e forasteiros se deliciam com o calor tardio do Verão. Chegado ao Louvre, casa de muitos tesouros artísticos da humanidade, aprecio a modernidade da intervenção do arquitecto Pei, simbolizada pelas pirâmides em vidro. Volto à cidade das grandes avenidas, subindo a da Ópera, encimada pelo belíssimo edifício que lhe dá nome.
De volta a casa, onde me espera o António, vamos jantar a um restaurante vizinho.

8 de Setembro: hoje tenho uma missão profissional a cumprir. Trata-se de uma reunião em Paris, no escritório da empresa CORBIS, com a qual trabalho há cerca de três anos, em Portugal.
Não se trata de uma reunião ordinária, já que vou assinar um documento que me desvinculará deste meu compromisso profissional. Isto significa que dentro em pouco estarei livre de qualquer responsabilidade profissional, reformando-me prematuramente.
Aconteça o que acontecer, poderei encarar a próxima grande viagem pelo mundo, a partir de 2006, com maior liberdade.
Concluída a reunião, passeio-me pela área onde se encontra a empresa, servida pela estação de metropolitano Cour St. Émillion, próxima da mais conhecida Bercy. Conheço esta parte da cidade, mais um bom exemplo de como Paris evolui urbanisticamente, respeitando o passado mas avançando para o futuro, com qualidade.
Aproveito ainda para revisitar outro centro de modernidade, o Instituto do Mundo Árabe, local onde confluem as várias culturas árabes.
Regressando a casa, saímos para jantar com o Miguel, filho do António e da Elisa, casado com a Karine, francesa.
Recém chegados de uma viagem de férias à Tunísia, aproveitamos para falar de viagens, prazer maior para todos nós.

9 de Setembro: de volta à estrada, dirijo-me para Bruxelas, onde tenho um breve encontro com o Mathias, genro da Ingrid, a quem entrego as bagagens que transportei.
Sigo para Roterdão, onde me espera o meu primo Xico, aqui residente. Chegados a casa, no centro da cidade, conheço duas amigas do Xico, Ângela e Susana, mãe e filha, residentes na Suiça, que também estão de visita.
Antes do jantar, saímos a pé, sendo evidente que os residentes de Roterdão, comunidade multicultural, aproveitam o ainda tempo de Verão para conviverem ao ar livre.
Jantamos no Restaurante Oliva, que pelo nome se dedica à cozinha italiana, na companhia de alguns colegas portugueses do Xico, na empresa Unilever, igualmente aqui residentes.
A rua em que se situa este restaurante encontra-se em festa durante este fim-de-semana, havendo muita gente, música, copos a circular, e outras manifestações de alegria.

10 de Setembro: para iniciar a minha estada na Holanda, país onde já tinha estado anteriormente, fomos visitar a cidade de Delft, burgo com mais de 750 anos de vida, situada a cerca de meia hora de carro, ou de comboio, de Roterdão.
Esta bela cidade, tem inúmeros atractivos, desde a tradição de azulejaria azul e branca - da qual temos em Portugal um espólio importante, no Museu da Figueira da Foz, devido a um naufrágio de um navio - passando pela “Dutch East Índia Company” que aqui se estabeleceu há cerca de 400 anos atrás, para explorar as riquezas do mundo oriental, particularmente as especiarias - em concorrência com Portugal e outras nações europeias - até ao pintor flamengo Johannes Vermeer (séc. XVII), sobre a vida do qual foi apresentado há poucos anos o filme “A rapariga do brinco de prata”, natural e residente em Delft.
Hoje, a cidade fervilhava de vida, também pela presença de inúmeros visitantes. Para além dos muitos locais de interesse permanente, havia mercados de rua onde se expunham bens alimentares, flores e velharias, entre outros, e uma feira colorida e ruidosa que, estranhamente, ocupava uma das praças principais da cidade, retirando-lhe a beleza habitual.
Regressados a Roterdão, fomos jantar ao Restaurante De Pijp, que julgo ser o preferido do Xico.
É um local curioso, por ter algumas características originais, pela história do local, e pela comida merecedora de crédito.

11 de Setembro: as outras duas residentes em casa do Xico, Ângela e Susana, regressam hoje à Suiça, viajando de carro.
Nós vamos visitar outros amigos queridos, a Jantien e o Betito, e os dois filhos, Carolina e Leonardo (em português), que vivem também próximo, em Wassenaar, nas imediações de Den Haag (Haia). Acompanha-nos a Marta, jovem portuguesa, colega do Xico, também residente em Roterdão.
Nós que vivemos em Portugal, temos a noção de estarmos num território pequeno. Aqui, acentua-se essa noção já que, quase todos os pontos de maior interesse estão ao nosso alcance, de carro, no limite de uma hora.
Wassenaar é uma área residencial para pessoas abastadas, com uma elevada percentagem de estrangeiros residentes.
Chegados a casa da Jantien e do Betito, constatamos que estão a preparar uma mudança para uma nova casa, maior que esta, na mesma área. Por este motivo, estão atarefados mas, o Betito convida-nos a irmos dar um passeio rápido no tempo, mas lento no ritmo, no barco a motor deles que está num dos muitos portos de recreio que fazem deste país um dos melhor equipados para a prática da navegação de recreio. Creio aliás, que a Holanda é o segundo país do mundo, a seguir à Nova Zelândia, no que respeita ao número médio de barcos de recreio por habitante.
A Jantien ficou em casa, nas arrumações.
Saímos do porto, interior, e percorremos alguns canais que nos levaram à povoação de Leiden, encantadora na sua escala humana e arquitectura tradicional, e cuidada por pessoas que prezam verdadeiramente o seu habitat e património.
Percorridos os canais que cruzam a localidade, lanchámos a bordo, e regressámos ao cais.
De volta a terra, dirigimo-nos para uma povoação vizinha onde nos encontrámos com a Jantien, para jantar num restaurante italiano.
No carro, o Betito colocou no leitor de CD um disco do grupo Duo Ouro Negro, angolanos, bastante populares no panorama musical português e angolano, sobretudo nos anos 60, do século passado.
A Marta que é demasiado nova para conhecer este estilo musical, ainda pôde apreciar uns passos de dança do Betito e do Xico, recordando os tempos da nossa juventude em Angola.
Curiosamente, os filhos do Betito parecem gostar bastante destas músicas, de terras distantes, para eles.
O jantar foi bastante agradável e divertido, até pelas intervenções de alguns empregados do restaurante, e sobretudo pelo proprietário, italiano de gema, tipo galã latino, que fez uma demonstração daquilo pelo que os italianos são conhecidos, interessando-se pela Marta.

No final desta primeira semana de viagem, começo a sentir-me descontraído e a apreciar o facto de poder viver sem os constrangimentos de cumprir formalidades e obrigações que normalmente nos limitam.
Esta semana, pelo menos, ficarei na Holanda. Até à próxima segunda-feira.