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07 setembro 2006

DE CÓRDOBA A BUENOS AIRES

À minha frente, vejo algumas vacas que pastam num terreno ondulado, com poucas árvores e bastante vegetação rasteira, que nesta época do ano está seca, por falta de chuva.
À minha esquerda, a cem metros de distância, cerca de vinte cavalos aguardam a oportunidade de serem montados.
Atrás de mim, algumas ovelhas e cabras passeiam pelo campo, na companhia de quatro cães perdigueiros. Perto de mim, uma cadela pastor-alemã, a Mate, não deixa de me tentar para que lhe atire um pau, ou uma pedra, que ela apanha com uma rapidez impressionante.
À nossa volta o silêncio é de ouro, sendo apenas interrompido pelo canto de aves que têm os seus ninhos nas copas das árvores à sombra das quais está o recinto onde se encontram os cavalos.
O ambiente é bucólico, e era mesmo o que eu queria para esta fase da viagem, ou será que deveria dizer, para esta fase da minha vida?
Mas vamos começar pelo princípio desta etapa …

Cheguei a Córdoba já noite avançada, depois de ter voado de San Miguel De Tucumán, via Buenos Aires, onde acabei por passar muitas horas no aeroporto, devido a um atraso no voo final.
Hospedo-me num hotel confortável, no centro da cidade.
No dia seguinte, avanço para o reconhecimento habitual de uma cidade desconhecida.
Visito o local de informações turísticas, instalado no edifício designado como “Cabildo”, sede do poder colonial castelhano, onde me dizem que turistas portugueses, aqui em Córdoba, são raros. Nada que me surpreendesse, já que tenho ouvido o mesmo comentário em quase todos os locais por onde tenho passado.
Passeio a pé pela área central da cidade, com várias ruas pedonais interligadas por pátios interiores que atravessam os edifícios que formam estes quarteirões.
Aliás, estas mesmas ruas pedonais foram adaptadas à circulação das pessoas, tendo uma cobertura de plantas trepadeiras que crescem em estruturas metálicas ali colocadas para este fim.
De resto, esta área urbana é ocupada por inúmeras casas comerciais, o que atrai as pessoas.
A cidade de Córdoba alberga uma das universidades mais antigas da América do Sul, nascida em 1621, o que faz com que tenha uma importante população estudantil.
A reitoria da universidade está instalada numa parte dos edifícios que os Jesuítas edificaram em Córdoba, pouco depois da fundação da cidade, no século XVII, sendo o conjunto arquitectónico conhecido como a “Manzana” dos Jesuítas.
Este conjunto, do qual faz parte a Igreja da Companhia de Jesus, é hoje património cultural da humanidade, bem como uma série de missões jesuíticas que se encontram disseminadas pela região.

Nos dias de fim-de-semana, decorre em Córdoba a feira “Passeio das Artes”, a qual tem o horário estranho de começar a partir das 17 horas, prolongando-se noite fora. Esta feira decorre ao ar livre, numa área tranquila da cidade, e nela se expõem trabalhos artesanais contemporâneos, assim como antiguidades.
Ao passear pela feira, detive-me à conversa com dois livreiros, Enrique, pai e Mara, filha, que ali se dedicam à venda de livros.
Uma vez mais, é citado o nome de José Saramago, e da sua obra, certamente muito popular na Argentina. De facto, ao longo desta minha estada na Argentina, várias pessoas, desde motoristas de táxi a empregados de restaurantes, têm referenciado o nome do escritor português, após saberem da minha origem.

Numa das noites passadas em Córdoba, fui jantar a um restaurante recomendado, La Mamma, onde poderia comer algo que não carne, da qual já estou farto.
Apanhei um táxi e, ao chegar ao local, enquanto pagava o serviço ao motorista, fui surpreendido por alguém que abriu a porta do táxi. Observei tratar-se de uma menina, aparentando ter uns dez anos de idade, que tomou aquela iniciativa para ganhar algum dinheiro.
Ao sair do carro, falei com ela, para perceber a sua situação. Disse-me, com correcção, que ali, naquele cruzamento da cidade, ela e uma amiga “trabalham” para ganharem a vida.
Ao entrar no restaurante, pensando na situação humana na qual tropecei, escolhi uma mesa junto a uma janela, da qual observei o que se passava no cruzamento.
A pequena com quem falei, e a sua amiga, de idade semelhante, abordavam os automobilistas que ali paravam, de cada vez que o semáforo ficava vermelho.
Uma oferecia serviço de limpeza de vidros dos carros e a outra, divertia os passantes com um número de malabarismo, digno de um espectáculo de circo, com limões, em substituição de bolas.
Ao sair do restaurante, dirigi-me a elas para saber algo mais das suas vidas. Disseram-me que ali ficam até cerca das onze horas da noite, quando uma senhora as vai buscar, para regressarem a casa.
Ofereci-me para lhes dar de comer, o que aceitaram. Fui comprar-lhes o jantar, que agradeceram.
De volta ao hotel, a pé, pensei que aquelas duas meninas poderiam ser minhas filhas, ou filhas de qualquer dos meus amigos. Antes fossem!
Antes de chegar ao hotel, passei pela praça central, San Martin, onde decorria uma milonga. Junto à estátua a um dos heróis da Argentina, algumas dezenas de pares dançavam o tango.

Antes de regressar a Buenos Aires, e de deixar a Argentina, quero descansar, num ambiente campestre. De momento, para além de me sentir cansado, devo ter uma gripe, ou algo parecido.
Este é o momento indicado. Escolho uma propriedade de turismo rural, Posada Camino Real (http://www.posadacaminoreal.com.ar/) situada cerca de uma hora e meia a norte de Córdoba, onde vou estar três dias.
De Córdoba, viajo de autocarro para a povoação de Jesus Maria, onde de táxi sigo para o destino, por estrada de terra. Pelo caminho, passamos por Santa Catalina, a maior das Missões Jesuíticas da região.
Santa Catalina foi fundada pelos jesuítas em 1622, que ali desenvolveram uma actividade agropecuária importante, a qual abastecia outras missões da ordem.
Depois da expulsão dos jesuítas de Espanha e seus territórios coloniais, na segunda metade do século XVIII, a coroa espanhola vendeu a particulares as missões edificadas pelos jesuítas. No caso de Santa Catalina, desde então, a propriedade pertence à mesma família.
Pelo antigo caminho real, que se dirigia para norte até ao alto Peru, chego à Posada Camino Real. Antes de chegar, sabendo que os proprietários estariam ausentes, imaginei que iria ser recebido por pessoas idosas mas, enganei-me redondamente.
À chegada, esperam-me a responsável pela pousada, Agustina, e o Aldo, ambos jovens, com menos de trinta anos de idade.
A Agustina, é natural de Buenos Aires, onde residiu até há poucos anos, quando, “cansada de sobreviver na grande metrópole argentina”, segundo as suas palavras, decidiu procurar melhores condições de vida noutro lugar.
O Aldo, é paraguaio, filho de uma médica, e decidiu emigrar há menos de um ano, também na expectativa de alcançar uma vida melhor.
Para além destes dois jovens, conheço outros dois que fazem parte da equipa de serviço, que destaco: a Eugenia, jovem cordobesa, recém formada em cozinha, que aqui se encarrega da confecção da comida, com arte, e o Roque, que cuida dos cavalos da propriedade com os quais tem uma relação afectiva especial.
A propriedade tem cerca de seiscentos hectares de terreno, o que para a escala da Argentina, significa tratar-se de uma pequena propriedade.

Depois de instalado no meu quarto, constato que sou o único hóspede que aqui está, pelo que todas as atenções do grupo de trabalho me são dirigidas.
Para já, a prioridade é descansar. Depois de almoçar, vou dar um passeio a pé, e não vou só. A Mate, a cadela pastor-alemã, segue-me como se fossemos velhos conhecidos.
Ao regressar, deito-me e durmo uma sesta, o que já não fazia há muito tempo.
Mais tarde, janto e comprovo que a Eugenia tem talento para a cozinha. O Aldo, que também assegura o serviço de mesa, mostra-se inexcedível nas atenções para comigo.
Ao segundo dia arrisco um passeio a cavalo. Que me lembre, há pelo menos dez anos que não montava nenhum cavalo, depois de, há muito mais tempo, ter aprendido a montar numa escola da GNR, em Lisboa.
O Roque escolheu para minha montada a Rubia, uma égua paciente. Somos acompanhados pela Eugenia, que só desde que aqui trabalha aprendeu a montar, e pelos cinco cães da propriedade que são profundos conhecedores da região já que, vão livremente à nossa frente, farejando incessantemente, espantando algumas das muitas aves que se encontram nos campos, e assustando algumas vacas que pastavam tranquilamente.
Durante duas horas e meia, os oito, para além dos cavalos, passeamos por montes e vales, sempre a passo nós e os cavalos, e em correrias desenfreadas os cães, que se divertiram ainda mais do que nós.
Ao fim do segundo dia no paraíso, chegam mais hóspedes. Um deles, a Carolina, argentina, é jornalista de viagens e está de visita a esta região, por razões profissionais.
A Carolina só fica cá uma noite. Na pousada proporcionam-lhe o melhor, naturalmente. Apesar do pouco tempo que a Carolina aqui fica, conseguimos conviver no decurso de um passeio matinal com os cavalos, e fico com interesse em conhecê-la melhor.

Chegada a hora de viajar para Buenos Aires, é com tristeza que me despeço dos amigos da Pousada Camino Real.
Em Córdoba, apanho um autocarro que viaja de noite pelas planícies que se espraiam até Buenos Aires. São pouco mais de 700 km percorridos em cerca de nove horas, com chegada a Buenos Aires de manhã cedo.
Apanho um táxi para me levar ao apartamento onde já havia estado anteriormente, no bairro de Recoleta. Este, não é distante do Terminal de autocarros mas, o motorista que me conduz, quer mostrar-me outras áreas de Buenos Aires, pelo que tenta levar-me a passear.
Como eu identifiquei a artimanha, usa outro estratagema para me tentar enganar. Fala-me de um novo dinheiro, codificado, que estaria agora em circulação. Enfim, o conto do vigário, na versão argentina.
Não tive outro remédio senão sair antes de chegar ao destino, e apanhar outro táxi, este sim, conduzido por um profissional, que se indignou quando lhe contei o sucedido.

Já familiarizado com a área de Recoleta, revisito locais de que gosto, e descubro com prazer, que uma das casas de gelados de que mais gosto, Un’ Altra Volta, abriu uma gelataria no bairro. Não resisto à tentação e, enquanto como um gelado, observo que a casa tem muitos ramos de flores, magníficos, que foram oferecidos por outras casas comerciais do bairro, acompanhados por cartões de boas-vindas.

Entretanto, Buenos Aires faz jus à imagem de uma cidade com uma vida vibrante.
Num passeio ocasional, aqui perto, ao acercar-me de um cruzamento, observo que no mesmo se encontram paradas algumas centenas de pessoas.
Presto atenção e verifico que todos estão atentos a um indivíduo, jovem, de traje original, que simula uma série infindável de situações, utilizando a expressão da mímica. Ele comunicava com transeuntes, carros e respectivos condutores, autocarros e tudo o que se movesse naquele cruzamento.
Foi um espectáculo de rua extraordinário, que a todos agradou.
Imaginei que em Portugal, ou em qualquer outro país seria igualmente um êxito. Pelo sim pelo não, no final da actuação, contactei o artista, que dá pelo nome de Mimo Tuga, dei-lhe os parabéns e pedi-lhe os contactos.
Se alguém o quiser convidar para actuar noutro país, ele está interessado, e eu tenho os seus contactos.
É um divertimento garantido!

Antes de deixar Buenos Aires, tenho a oportunidade de rever a Vilma e o Óscar, e a Carolina, que conheci há poucos dias na Pousada Camino Real.
A Carolina está também numa fase de transição profissional, por decisão dela, pretendendo continuar a sua vida noutros moldes, como escritora de viagens.

Depois de 37 dias na Argentina, é tempo de viajar para o Chile, mais precisamente para Santiago.

27 agosto 2006

A ARGENTINA ANDINA – DE HUMAHUACA A TUCUMÁN

A chegada a Salta, capital de uma das províncias do noroeste da Argentina, revela de imediato uma outra realidade da Argentina: as culturas andinas.
Em Salta, as influencias europeias tão evidentes em Buenos Aires, quase não se sentem, tão fortes são as características dos modos de vida indígenas desta região dos Andes.
Salta é hoje a cidade que oferece o maior leque de serviços destinados aos visitantes da região. Apesar de estarmos no Inverno, é notória a presença de muitos visitantes, quer estrangeiros quer nacionais.
Há dias, o principal jornal diário da Argentina, La Nacion, noticiava que o Turismo tem uma importância crescente na economia nacional e que, este ano o país receberá mais de 4.000.000 de visitantes, beneficiando com a desvalorização da moeda argentina, o peso.

A cidade de Salta, popularmente chamada “La Linda”, tem um centro urbano que conjuga a maioria dos principais monumentos, com muito comércio de rua. Quase tudo converge para a Praça 9 de Julho, espaço amplo quadrangular, com um jardim central, na qual se situa a Catedral da cidade, ampla construção do final do século XIX.
Ao passear pela praça, num dos dias, observei que um grande número de jovens, em traje estudantil, se aglomerava à porta da Catedral. Tendo estabelecido contacto com eles, fiquei a saber que ali estavam para participar numa missa dedicada a duas figuras da religião católica, muito queridas pelos residentes de Salta. Tendo entrado na igreja para observar a missa, constatei que a mesma se encheu com largas centenas de jovens, de várias escolas da região. Cada escola, entrou na igreja de forma ordenada, com dois porta-estandartes à cabeça: um com a bandeira da Argentina, e o outro com a da escola.
Para além da Catedral, merece destaque a Igreja e Convento de São Francisco, edifício de fachada exuberante, ricamente iluminado, tal como outros imóveis importantes da cidade.

No que respeita a locais de interesse cultural, visitei o recente Museu de Arqueologia de Alta Montanha – MAAM (http://www.maam.org.ar/), também situado na Praça 9 de Julho, dedicado a um achado arqueológico que ocorreu em 1999 na mais alta montanha vulcânica existente na Argentina, Llullaillaco, junto à fronteira com o Chile.
A 6.700 metros de altitude, uma expedição internacional descobriu três corpos de jovens, sepultados juntamente com inúmeros objectos, há cerca de 500 anos atrás, supondo tratar-se de um sacrifício de acordo com rituais da civilização Inca, que na altura se estendia até ao norte da Argentina.
O museu está soberbamente organizado, e a exposição, constituída sobretudo pelos objectos encontrados juntamente com os corpos, embora restrita a um acontecimento, é muito interessante. De referir que, as múmias dos jovens encontrados, em excelente estado de conservação, não estão ainda expostas, o que deverá acontecer a partir do final do presente ano, numa nova sala.

Apesar da cidade de Salta ter atractivos para me manter activo por vários dias, saio da cidade ao terceiro, para conhecer a região andina, no norte da Argentina.
Das várias possibilidades que se me oferecem, opto por alugar um carro, com o qual me vou deslocar durante uma semana, primeiro para norte de Salta, e mais tarde para sul, até chegar a Tucumán, de onde terei um voo para Córdoba.
No primeiro dia de viagem de carro, saio de Salta (situada a cerca de 1.200 metros de altitude) de manhã cedo, com tempo frio e encoberto. Dirijo-me para noroeste, para percorrer um desfiladeiro chamado Quebrada del Toro, que acompanha o leito do rio Toro, largo mas, quase seco, como aliás todos os rios desta região. Pelo que li, nesta região, a pluviosidade é baixa, particularmente nesta época do ano, e os rios são instáveis, provocando enxurradas nalgumas ocasiões.
Esta característica faz-me lembrar os “oueds” (rios) de Marrocos.
A estrada que percorro acompanha uma via-férrea, durante muitos quilómetros, famosa por nela transitar um dos comboios que viajam a altitude mais elevada no mundo. Trata-se do “Tren a las Nubes”, que agora está parado, para renovação.
A meio da manhã, o tempo muda radicalmente, aparecendo um sol radioso, e o céu apresenta-se com um azul intenso.
As primeiras paisagens montanhosas são impressionantes, quer pela escala das montanhas, pela quantidade, e pela riqueza cromática das encostas, bastante rochosas, quase desprovidas de vegetação, à parte cactos de grandes dimensões (aqui chamados de “cardones”) e uma erva baixa, de cor amarela.
Ao fim da manhã, passo pelo primeiro cume a mais de 4.000 metros de altura, pouco antes de chegar a uma vila mineira de aparência fantasmagórica, chamada San António de los Cobres.

Antes de iniciar esta parte da viagem, em Salta, informei-me acerca de possíveis efeitos e riscos de subir a altitudes elevadas, às quais não estou habituado.
Foi-me dito que, se sentisse o “apunamiento”, termo local que identifica os sintomas de má adaptação a locais muito elevados, poderia aplicar as seguintes fórmulas:
- Mastigar folhas de coca
- Beber chá de coca
- Cheirar dentes de alho
Na verdade, para além desta informação, não tomei nenhuma medida preventiva, e foi com algum alívio que constatei que, para além da minha respiração se ter alterado ligeiramente, provavelmente devido à menor percentagem de oxigénio no ar, não senti qualquer outra reacção.
Quanto ao consumo humano de folhas de coca nesta região, é comum.

Voltando à minha curta visita a San António de los Cobres, depois de comer num dos restaurantes mais pobres que conheci, volto à estrada, para percorrer um troço de cerca de 100 km de extensão, em terra, com muita pedra. Estou num planalto, a mais de 3.000 metros de altura, e os únicos seres vivos que vejo são, um rebanho de ovelhas e lamas, e as escassas pessoas que ali vivem, em casas modestas de barro.
Neste percurso, cruzo-me apenas com dois automóveis.
Duas horas depois, avisto as salinas, ou lagos salgados, designados como “Salinas Grandes”. São as maiores da Argentina, e não muito distantes das que se encontram no Chile e Bolívia, países próximos.
Aliás, aproveito para revelar um eventual erro de planeamento desta minha viagem, relacionado com esta área geográfica.
Ao decidir visitar o Chile, país que se segue no meu itinerário, escolhi a região do deserto de Atacama, pelo qual sempre me interessei, situado a poucas centenas de quilómetros da área em que agora me encontro.
Em Salta, fiquei a saber que existe uma viagem de autocarro que une as cidades de Salta, na Argentina, com San Pedro de Atacama, no Chile. Esta viagem dura cerca de doze horas, e é diurna. Parte do trajecto é aquele que fiz até chegar a Salinas Grandes. Se eu soubesse o que sei hoje …
A área das salinas é estranha. O terreno é plano, liso, branco, com camadas variáveis de sal. Faz frio e muito vento. Dizem-me que o vento é normal nesta época do ano.
Depois de apreciar o local, volto à estrada para percorrer o último bocado de estrada do dia, felizmente asfaltada, e em bom estado.
Inicio mais uma subida, de grande beleza paisagística, para passar mais um cume alto, El Quemado, com cerca de 4.200 metros de altura. Aqui começa a maior atracção natural desta região, a Quebrada de Humahuaca, conjunto de desfiladeiros que se prolongam por dezenas de quilómetros, que é património natural da humanidade.
A descida que se segue, Questa de Lipán, é absolutamente deslumbrante.
As paisagens são majestosas, as montanhas parecem enfrentar-se fisicamente, é uma enciclopédia de geologia que está á minha volta.
Esta é a estrada de montanha mais impressionante que já percorri!

Ao final da tarde, chego a Purmamarca, aldeia localizada numa área privilegiada da Quebrada de Humahuaca, a cerca de 2.200 metros de altura.
Cansado, escolho o melhor hotel da aldeia, e provavelmente da região, para pernoitar. É o Hotel El Manantial del Silencio (http://www.hotelmanantial.com.ar/), acolhedor e requintado, no qual pago uma diária correspondente a 50 euros.
Acabo por permanecer três noites neste local, a partir do qual visito a área da Quebrada de Humahuaca.
As localidades que visito não são particularmente interessantes, a não ser em aspectos pontuais, como sejam as praças principais, sempre cheias de vida, e algumas igrejas edificadas no período colonial, ou já no século XIX.
Para além das povoações, interessa-me conhecer os modos de vida dos indígenas, sobretudo os descendentes dos incas, e a gastronomia.
Pela primeira vez, como carne de lama, que faz parte dos cardápios da maioria dos restaurantes locais.

Mas, o que mais me interessa aqui, é o contacto com a natureza, particularmente as grandes montanhas dos Andes, e as formas e cores com que elas se apresentam.
As paisagens são verdadeiramente deslumbrantes, e difíceis de descrever. Mas, para terem uma ideia da riqueza geológica, cito como exemplo a localidade de Purmamarca, onde tenho a minha base, que está rodeada por elevações de altura e cores variáveis. É como se a natureza tivesse construído um cenário envolvente à aldeia, de modo a torná-la mais interessante do que na realidade é.
Uma destas formações geológicas, que se encontra atrás da aldeia, é chamada de “Cerro das Sete Cores”, tantas são as cores que nela se podem identificar.
Para os amantes da natureza, e particularmente das montanhas, este é um templo importante, para conhecer.

Nesta mesma área, existem inúmeros vestígios de ocupação humana anterior à chegada dos europeus, no século XVI, chegando a remontar a 10.000 anos A.C.
Aquele que está em melhores condições para ser visitado, é o povoado pré-inca “Pucará” (palavra que na língua Quechua, que era utilizada na região, no período Inca, significa fortaleza) de Tilcara.
Localizado no topo de uma colina situada no vale da Quebrada de Humahuaca, junto ao rio, o que lhe confere uma localização excepcional, tem inúmeras ruínas de construções em pedra, das quais uma parte foi reconstruída, com absoluto rigor.

Passados três dias nesta área inesquecível, inicio o percurso para sul, passando por Jujuy, uma das principais cidades da região, e por uma área montanhosa que contrasta com as que visitei nos dias anteriores, pelo facto de ser densamente arborizada. Aliás, quer pela vegetação (floresta “Yunga”), quer pela estrada que a percorre, estreita e sinuosa, faz-me lembrar a Serra de Sintra, nos arredores de Lisboa, só que esta na Argentina, tem uma escala muito maior.
Pernoito em San Lorenzo, localidade nos arredores de Salta.
Esta é uma área residencial de luxo, e em conversa com a proprietária (Josefina) da casa/pousada em que pernoito, Posada Don Numas (http://www.donnumas.com.ar/), fico a saber que aqui existem muitos investimentos imobiliários da Bolívia, para escapar ao poder politico reinante naquele país.
Apesar das amabilidades dispensadas pela Josefina, proprietária da casa em que fiquei, e dos seus colaboradores, parto na manhã seguinte para fazer uma etapa que me vai levar a uma povoação remota da região, Molinos, através de uma estrada que é maioritariamente de terra, que atravessa os chamados Vales Calchaquíes.
A parte inicial da estrada acompanha um rio até que sobe vertiginosamente (Cuesta del Obispo) até ao cume da montanha com o mesmo nome, a mais de 3.300 metros de altura.
Atingido o planalto, entro na área do Parque Nacional Los Cardones, repleta de cactos gigantes, alguns com mais de 5 metros de altura, os quais têm um crescimento lento, de apenas alguns centímetros por ano.
Antes de alcançar a aldeia de Cachi, a estrada dirige-se perpendicularmente para uma autêntica parede de montanhas, que se apresentam em três níveis de altura crescente. A mais afastada e alta, com alguma neve no topo, é o Nevado del Cachi, com 6.380 metros de altura.
Após uma paragem para recuperar energias, em Cachi, onde reencontro duas conhecidas, uma espanhola e uma italiana, com quem tinha tido um primeiro contacto há alguns dias atrás em Tilcara, sigo viagem para Molinos, percorrendo mais umas dezenas de quilómetros por uma pista sinuosa, que no entanto tem a classificação de estrada nacional, de piso impróprio para o pequeno carro que conduzo. Lembro-me várias vezes, com saudades, do meu antigo Land Rover. Como ele seria útil nestes caminhos!
Ao fim da tarde, chego a Molinos, mais uma povoação desinteressante, com a excepção de um conjunto arquitectónico constituído por uma igreja e o casario fronteiro, edificados no século XVIII.
É numa parte deste conjunto arquitectónico que está localizado o Hostal Provincial de Molinos, no qual me hospedo.
O local é muito agradável e acolhedor, sendo predominantemente rústico. Os quartos e áreas de serviço distribuem-se à volta de um pátio quadrangular, no centro do qual está uma árvore magnífica (aguaribay), cuja copa ocupa na totalidade a área do pátio.
Naquela noite conheço os responsáveis pela gestão do hotel, Marcelo e Ana, com quem tenho o prazer de jantar, e passar um agradável serão.
Na manhã seguinte, parto para nova etapa de pista dura, mas antes, vou visitar uma propriedade vizinha da povoação, na qual são criadas vicunhas, que são agora uma espécie protegida, depois de ter sido quase extinta, por caça indiscriminada.
A vicunha é um animal parente da lama, alpaca e guanaco, elegante na sua forma, de comportamento sensível. A sua lã, a mais fina de todas as espécies animais do mundo, muito apreciada para trabalhos têxteis, é de difícil tratamento. Para além do mais, a produção da lã é escassa já que, cada animal só pode ser tosquiado em cada dois anos, permitindo uma recolha de apenas 250 gramas de lã.
Ao sair de Molinos, encontro duas jovens mulheres a pedirem boleia. Contrariamente ao meu hábito, paro para saber quem são e para onde vão.
A Alfonsina e a Belen, argentinas, residentes na cidade de Paraná, a norte de Buenos Aires, são estudantes de Sociologia e, estão a viajar nesta região com o intuito de conhecerem melhor as culturas nativas, particularmente no que aos têxteis diz respeito.
O que acontece é que, viajam à boleia, por opção pessoal. Ao vê-las naquele local ermo, senti necessidade de as ajudar, pelo que as transportei até ao meu destino desse dia, Cafayate.
Nesse dia, por um dia, viajei acompanhado, coisa a que já não estou habituado.
A estrada manteve o mesmo nível do dia anterior, mau, o que nos obrigou a um esforço maior, até porque o espaço interior tinha diminuído.
De resto, percorremos novas paisagens impressionantes, nomeadamente na Quebrada de las Flechas, cujo nome ilustra bem as formas estranhas com que os penhascos aqui estão moldados.
Antes de entrarmos em Cafayate, ainda percorremos alguns quilómetros de uma outra estrada, que não a que nos leva à cidade a que nos dirigimos, que percorre
uma área natural fascinante mas, o final do dia obriga-nos a retroceder.

No decurso deste dia, observei que as minhas duas companheiras de viagem consomem erva-mate, na forma de chá, hábito muito comum aqui na Argentina, como no Uruguai, e no sul do Brasil.
Os consumidores fazem-se acompanhar por um conjunto de objectos que lhes permite satisfazer o gosto, onde quer que estejam. Assim, é comum verem-se pessoas na rua, com uma garrafa termos nas mãos, na qual transportam água quente, e o copo com uma palhinha, especiais, para poderem usufruir do prazer de beber mate, como vulgarmente é chamado.
Esta tradição mantém-se, mesmo nas gerações mais jovens, e na Argentina, para além da água, é a bebida mais consumida.

Chegados a Cafayate, deixo as minhas companheiras de hoje num dos Parques de Campismo da cidade, cujo conforto deixa muito a desejar.
Quanto a mim, hospedo-me no Hotel Killa (http://www.killacafayate.com.ar/) ou melhor, Casa de Hóspedes, como a Martha, sua proprietária, a identifica.
A Martha, ex-professora, argentina de origem local, explica-me no seu tom didáctico e amável, que o nome Killa é de origem Quechua, e significa “lua”.
Aprecio bastante o local, a casa e o quarto que me dão, e decido ficar duas noites.
No dia em que chego a Cafayate, na casa onde estou, conheço um casal de hóspedes, Justine e Adriano, ela de Hong Kong e ele de Itália, residentes em Paris. Decidimos jantar juntos, e sigo-os na escolha de um hotel recente nos arredores da cidade, do qual tinham boas referencias.
O hotel está instalado numa das várias propriedades vinícolas da região, famosa por aí serem produzidos vinhos, ao que parece de boa qualidade, das castas cabernet e torrontés, a quase 2.000 metros de altitude.
Chegados ao hotel, gerido pela empresa Starwood, com a marca Sheraton, descobrimos que os proprietários do hotel são uruguaios, e os da exploração vinícola, suíços. Mais um exemplo da aldeia global em que o mundo está transformado.

Cafayate revelou-se um local agradabilíssimo, onde encontrei alguns dos melhores artesãos da região, com trabalhos notáveis, tendo tido a felicidade de conhecer alguns deles, com os quais estabeleci uma relação pessoal afectuosa.
A Andrea e o Alfredo, casados, ambos em segundas núpcias, dedicam-se a criar e produzir trabalhos artesanais, em áreas distintas, embora complementares.
A Andrea trabalha com flores, pequenas, algumas minúsculas, que eterniza com resina, produzindo peças de uma beleza e delicadeza extraordinárias.
O Afredo, depois de ter tido uma carreira como cabeleireiro, dedicou-se à criação e produção de peças em metal, normalmente prata e alpaca, que também combina com minerais e madeira.
Trabalham e vivem no mesmo local, e cada um deles tem os seus colaboradores, em oficinas separadas.
Numa outra visita, em condições idênticas, conheço o trabalho do Oscar Hipaucha, provavelmente o artesão mais conhecido da região, devido à qualidade extraordinária do seu trabalho. Este é desenvolvido com madeiras da região, combinadas com metal, com as quais desenha e produz sobretudo caixas, de muito bom gosto e originalidade.
Encontrei o Oscar acompanhado pelos seus dois colaboradores de longa data, a trabalharem no atelier/oficina.
Entre nós, criou-se de imediato uma relação empática, até porque descobrimos que temos pelo menos um outro gosto comum, o da música de jazz. Aliás, um dos dois filhos do Oscar é músico profissional desta área, vivendo actualmente em Barcelona, Espanha.
Nesse mesmo dia, mais tarde, voltei a visitá-lo, para conversarmos com mais disponibilidade, no jardim de sua casa, anexa ao local de trabalho. Aí, tive o prazer de conhecer também a companheira do Oscar, Susana.
São pessoas deste nível que me fazem sentir bem, pensando que nem tudo está perdido para a espécie humana.

Ainda em Cafayate, tenho outra prova de gelados, que comprova o altíssimo nível dos mesmos na Argentina.
Uma das várias gelatarias de Cafayate produz um gelado a partir dos vinhos da região, com os sabores Torrontés e Cabernet.
Parece ser um caso único no mundo dos gelados, pelo que a proprietária da casa me disse. O criador é o seu marido Miranda, simultaneamente nome da casa, o qual é também artista plástico, pintor, expondo o seu trabalho no mesmo local onde os gelados são vendidos.
Como o vinho não me é particularmente querido, provei as novidades, mas deliciei-me com outros sabores.

Saio de Cafayate, em direcção a Tucumán, onde vou deixar o carro com que ando.
A primeira paragem ocorre em Quilmes, local onde viveu uma comunidade indígena, extinta, depois da colonização espanhola.
Esta é mais uma triste história do que aconteceu no passado com muitas comunidades indígenas, pelas acções dos colonizadores/invasores. Hoje, restam as ruínas de uma povoação que chegou a ter mais de 3.000 habitantes.

A estrada volta a empinar, subindo até aos 3.042 metros de altura, e aí, num ponto chamado Infiernillo, paro para admirar a paisagem, tal como outros viajantes. Chama-me a atenção um jovem casal, que viaja de bicicleta.
Dirijo-me a eles e apresento-me. Eles são a Lucia e o Daniel, argentinos, de Buenos Aires, e estão a viajar há cerca de sete meses, tendo visitado muitos dos países da América do Sul.
Já percorreram nesta viagem, cerca de 12.000 km, metade dos quais a pedalar.
Agora, já cansados, confessam, estão de regresso a Buenos Aires, para retomarem uma outra vida.
Talvez nos vejamos lá, quando eu estiver de saída da Argentina!

Chegado a Tucumán, à entrada da cidade, percorro uma avenida larga, e reparo num facto insólito: em ambos os lados da avenida, dezenas de pessoas acenam aos automobilistas que passam, para oferecerem serviços de lavagem dos automóveis, que são efectuados ali mesmo, na via pública.
Instalo-me por uma noite, num hotel no centro da cidade, na Praça da Independência.
Esta é de secção quadrada, com jardim central, e como sempre, fervilha de vida.
Observando os edifícios que a ladeiam, chamam-me a atenção os mais nobres: o palácio do governo provincial, a catedral, a Igreja Universal do Reino de Deus (instalada num antigo cinema, … onde é que eu já vi este filme?), e começo a reparar nas gelatarias. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis gelatarias, só aqui na praça central da cidade, para além de várias outras casas comerciais que também vendem gelados industriais.
Há noite, depois do jantar, não resisto e vou a duas delas. A lista de sabores é, como habitualmente extensa, e criativa. Numa das que visitei, há um gelado chamado “portuguesa”. Provei-o mas, não me cativou.
Em Tucumán, apercebo-me daquilo que me parece ser poluição atmosférica proveniente de chaminés que se encontram na periferia da cidade.
Esta região tem grandes extensões de campos cultivados com cana-de-açúcar, sendo a mesma posteriormente utilizada para a produção de açúcar para consumo interno e exportação.
Disseram-me que, nas imediações da cidade, estão actualmente em laboração dezasseis fábricas para tratamento de cana-de-açucar.

Aqui deixo o carro com que durante oito dias, percorri cerca de 1.500 km pelas más estradas do noroeste da Argentina.
Próxima paragem, Córdoba, a segunda maior cidade da Argentina.

Notas: creio que esta é a crónica mais extensa que escrevi até agora, nesta viagem.
Os dias aqui passados foram vividos intensamente, sobretudo pelo que a natureza deslumbrante me proporcionou, e também pelos contactos com algumas pessoas especiais que aqui conheci, que não só aquelas de que falei.
A natureza já anuncia a chegada da Primavera. Vêem-se cada vez mais árvores floridas, e outras com folhas novas.
Para além destes sinais, também as temperaturas estão em alta.





08 agosto 2006

BUENOS AIRES – BONS ARES E BOA VIDA

Na etapa anterior, em Iguaçu, estava um tempo quase de verão, com temperaturas diurnas próximas dos 30º centígrados.
De repente, ao chegar a Buenos Aires, bastante mais a sul, encontro os “porteños” (assim são chamados os naturais de Buenos Aires) a tiritar de frio.
Pela primeira vez, desde que estou na América do Sul, sinto o rigor do Inverno. Há uma massa de ar frio vindo da Antárctica, que alcança a região de Buenos Aires, onde as temperaturas nocturnas rondam os 0º. Nada comparado com os mais de 20º negativos registados no sul do país.

Buenos Aires é hoje uma das grandes metrópoles da América do Sul, e do mundo, com mais de 13.000.000 de habitantes.
Localizada na margem sul do rio da Prata, que aqui tem cerca de 45 km de largura, e a mais de 100 km da foz do rio, a cidade espraia-se por uma vasta área, essencialmente plana.
Tendo decidido permanecer na cidade um mínimo de uma semana, optei por alugar um pequeno apartamento (http://www.alsolbaires.com/departamentos.asp?codigo=rec099), situado no bairro Recoleta, uma das áreas residenciais mais credenciadas de Buenos Aires. O custo diário é inferior a 40 €.
Depois de me instalar, saio para conhecer a cidade. A área onde resido é claramente ocupada pelas classes sociais mais abastadas, e as casas comerciais destinam-se a essa freguesia endinheirada.
Mais tarde, tomo conhecimento de que, o antigo presidente da Argentina Juan Perón, e a sua mulher Eva, mais conhecida como Evita, residiram na mesma rua em que eu me encontro.
No primeiro jantar em Buenos Aires, decido testar a famosa carne de bovino argentina. Procuro um restaurante de qualidade, Piegari – Vitello e dolce, situado a cerca de 10 minutos a pé de casa, e ao ser atendido, informo o empregado que aquele era o meu primeiro jantar em Buenos Aires e que, não conhecendo a famosa carne argentina, gostaria de ter essa experiência.
O empregado respondeu-me que, se assim era, ele se encarregaria de me proporcionar esse prazer, não me dizendo o que me iria servir.
Passado o tempo necessário para a confecção do meu jantar surpresa, depois de me servir uma boa salada verde com queijo, traz-me um magnífico naco de carne bovina, com cerca de 400 gramas, que dá pelo nome de bife de “chorizo”.
Deliciei-me com o bife, o melhor que os meus dentes trincaram até hoje.
Quanto ao custo desta refeição, servida num bom restaurante, foi de cerca de
15 €. Esta informação serve apenas para aferir quão baixo é, para nós, “pobres” portugueses, o custo de vida actual na Argentina.
Esta situação favorável a visitantes de origens diversas, devida a uma recessão económica extrema, acompanhada de uma forte desvalorização do peso argentino, faz com que a Argentina esteja na moda, em termos turísticos.
A presença de visitantes é sentida com facilidade, sobretudo os vizinhos brasileiros que, mesmo dizendo mal dos argentinos, aqui vêm em grande número.

Ainda no que à gastronomia diz respeito, sabendo de antemão que aqui se fazem alguns dos melhores gelados do mundo, dediquei-me a comprová-lo, apesar do frio.
Ao longo da minha estada na cidade, experimentei quatro casas de marcas diferentes. As minhas preferidas são a
Freddo (http://www.freddo.com.ar), e a
Un’Altra Volta (http://www.unaltravolta.com.ar/).
Para além de cada uma destas marcas oferecer dezenas de sabores de gelado, com predominância para os chocolates e doces de leite, este último um doce muito popular na Argentina, têm casas atraentes e confortáveis, sobretudo a Un’Altra Volta. Hoje, sábado, estive numa destas, onde comi dois gelados.
Tendo conversado com alguns dos empregados, perguntei a que horas é que iriam encerrar a casa. A resposta foi, … às quatro horas da madrugada.
Recordo apenas que estamos no Inverno.

À parte a oferta de restauração que é excelente, Buenos Aires tem igual nível no comércio em geral.
Particularmente, chamou-me a atenção a grande quantidade de livrarias, nos vários bairros por onde andei. Há-as para todos os gostos, grandes e pequenas, e todas são bastante frequentadas, por adultos e crianças, o que denuncia um hábito de leitura generalizado.
De todas as livrarias da cidade, uma merece destaque especial, pela localização, dimensão e qualidade. Refiro-me à El Ateneo, situada na Avenida Santa Fe.
Esta livraria ocupa um edifício do primeiro quartel do século XX, construído na época para servir de cine-teatro, com o nome Grand Splendid. Na época, com capacidade para cerca de 500 espectadores, recebeu muitos nomes importantes da cena musical argentina. Mais tarde, entrou em decadência e foi abandonado. Resgatado para a sua nova função, o espaço é magnífico. A livraria/discoteca é constituída por cinco pisos, sendo três deles galerias que circundam o piso térreo. No espaço que antigamente serviu de palco, existe um café confortável, do qual se tem uma vista soberba sobre a plateia e galerias, repletas de prateleiras com livros e música.
Esta é seguramente, uma das livrarias mais bonitas do mundo!

A minha estada em Buenos Aires foi também marcada pelo reencontro com a Anna, amiga e ex-vizinha de São João do Estoril, que está agora a residir no Rio de Janeiro, onde já nos tínhamos encontrado. Casualmente, a Anna veio passar uns dias a Buenos Aires, pelo que passeámos juntos num dos dias.
Outros dois encontros casuais merecem destaque: um dia, passeava eu num parque, onde se encontra uma escultura invulgar, metálica, que representa um flor, de escala gigantesca, chamada Floralis Genérica, quando me cruzei com uma jovem mulher brasileira que, tal como eu, passeava sozinha. Naturalmente, aproveitámos a presença de ambos para nos fotografarmos frente à escultura.
Após as fotografias, ao apresentarmo-nos, deu-se a casualidade da Cristina estar a regressar ao Brasil, depois de ter estado a viver e trabalhar durante cerca de meio ano na, … Nova Zelândia.
Esta coincidência foi suficiente para estimular a minha curiosidade, pelo que passámos algum tempo juntos, aproveitando para visitar algumas áreas de Buenos Aires.
A Cristina, nascida e criada em São Paulo, a grande metrópole do Brasil, depois de se licenciar em Engenharia Alimentar, descontente com a sua vida profissional no Brasil, partiu para a Nova Zelândia, para lá trabalhar numa empresa vinícola.
Embora tivesse apreciado a experiência, resolveu regressar agora ao Brasil, e a São Paulo. A Cristina sabe que, depois de ter vivido num país como a Nova Zelândia, regressar à sua cidade natal envolve alguns riscos, pelo que considera outras alternativas externas ao Brasil.
O segundo encontro que merece destaque deu-se num restaurante popular que se situa em frente ao edifício onde residi em Buenos Aires, numa noite em que lá jantei.
Ao meu lado sentou-se um casal de idade avançada, vestido de modo elegante. Rapidamente começámos a falar, apresentando-nos mutuamente.
A Vilma e o Oscar residem no bairro em que estamos, e são clientes habituais da casa.
O Oscar refere uma viagem que fez a Portugal, com os pais e irmãos, em 1941. Mostra-se muito interessado na minha presença na Argentina, e oferece-se para me acompanhar num passeio a combinar.
Por interesse mútuo, voltamos a encontrar-nos, primeiro em casa do casal, e depois para um passeio que o Oscar conduz pelo bairro em que vivemos, Recoleta, durante o qual ele se revela não só um guia interessante mas, também um amante das artes visuais, particularmente de pintura, que também pratica, como amador.
O Oscar, com 77 anos de idade, é professor de educação física aposentado, e tem uma saúde física invejável.
O bairro Recoleta, como outros que visitei, tem vários jardins com árvores magníficas, algumas centenárias, e muitas estátuas, maioritariamente dedicadas a personalidades importantes da nação.
Nestes espaços, particularmente neste bairro, habitado por pessoas abastadas, vemos com frequência pessoas que passeiam cães, aos molhos. Na verdade, são profissionais que cumprem um programa de passeios higiénicos com os cães dos seus clientes, pessoas atarefadas. A curiosidade é que, cada pessoa circula normalmente com vários cães (cheguei a ver um que conduzia, sem se atrapalhar, uma dúzia deles).
Estes sinais de vida desafogada coincidem com outros de sinal contrário, que denunciam as dificuldades económicas sentidas por muitos dos residentes. Os mais significativos são, os pedintes, particularmente crianças e mulheres, e os “cartoneiros”, pessoas que percorrem as ruas, vasculhando nos caixotes de lixo, para apanharem papel e derivados, para reciclagem.
Apesar destes contrastes sociais e económicos, a vida em Buenos Aires é bastante segura, pelo menos se comparada com o que sucede nas principais metrópoles do Brasil.

Um dos símbolos culturais de Buenos Aires, e da Argentina, é o Tango, estilo musical enraizado na cidade, mas com muitos adeptos estrangeiros.
Não sendo eu um apreciador particular deste género musical, e muito menos um bom dançarino, quis sentir o pulsar musical do Tango em Buenos Aires.
Para isso, fui a um local onde se efectuam as chamadas milongas, que são bailes destinados a quem quer dançar, havendo muitos professores disponíveis, e onde também actuam músicos.
O local, a Confiteria Ideal, é um café tradicional do século XIX, actualmente em decadência. Na noite em que o visitei, pude apreciar excelentes dançarinos, tal como principiantes (de várias nacionalidades), que dançavam ao som de música gravada até que, já depois da meia-noite, a música passou a ser tocada por uma orquestra de tango.
Numa outra noite, dei-me à extravagancia de ir ao famoso Teatro Colón, que em breve irá cumprir o seu primeiro centenário, para assistir a um espectáculo comemorativo do cinquentenário da orquestra do maestro, e executante de “bandoneon”, Leopoldo Federico, um dos nomes mais importantes da história do Tango.
A sala estava quase cheia, sobretudo de argentinos, e ao meu lado sentou-se, casualmente, um casal de italianos, de Milão, que se mostrou impressionado com a grandeza do Colón, maior que o La Scala. A sala tem um pé direito altíssimo, onde cabem sete níveis de galerias, maioritariamente com camarotes.
O espectáculo foi de grande qualidade musical e sobretudo, emocionante, pelo carinho partilhado entre os músicos participantes, incluindo o maestro homenageado, e o público.

Depois de nove dias passados em Buenos Aires, deixo a cidade e o país, ao qual regressarei dentro de uma semana, para fazer uma curta visita ao Uruguai, país vizinho, que está na margem norte do Rio da Prata.
A Buenos Aires ainda regressarei antes de deixar definitivamente a Argentina, no inicio de Setembro, o que acontecerá com muito prazer, já que apreciei bastante esta minha primeira visita à capital da Argentina.




31 julho 2006

IGUAÇU – O APELO DA NATUREZA

Do avião em que viajei até Foz do Iguaçu, observo a paisagem, e vejo o leito dum rio largo, o Iguaçu, de trajecto sinuoso, que corre de oriente para ocidente, a sul do qual só se vislumbram campos agrícolas. A norte, como se o leito do rio servisse de fronteira, tudo o que a vista alcança é uma floresta densa.
É este o cenário nas proximidades de Foz do Iguaçu. Na verdade, o que aqui me traz, como à quase totalidade dos visitantes estrangeiros, é a riqueza natural desta região, consubstanciada no Parque Nacional do Iguaçu, no interior do qual se encontram as Cataratas do Iguaçu, património natural da humanidade.

O Parque está dividido entre os territórios do Brasil e da Argentina (na verdade, existem dois parques, cada um gerido por um dos dois países), que aqui se tocam, para além do Paraguai, que não possui qualquer parcela do Parque.
Estes três países aqui vizinhos, estão separados pelos leitos dos dois rios principais que cruzam a região, o Iguaçu, que poucos quilómetros depois de se despenhar nas cataratas se junta ao Paraná.
Gerido pelo IBAMA, o Parque brasileiro tem uma organização modelar: os visitantes são recebidos numa única entrada, que inclui para além das habituais unidades comerciais e serviços de apoio, um centro de informações de carácter pedagógico, com uma excelente exposição sobre a origem do Parque, os seus recursos hídricos, e as espécies vegetais e animais que nele vivem, para além das cataratas, a principal atracção do Parque.
Para se ter uma ideia da riqueza deste território natural, deixo uma informação sucinta sobre a fauna que habita o Parque.
Aves: mais de 300 espécies
Borboletas: 200
Répteis: 40
Peixes: 70

Quanto à floresta nativa que cobre a quase totalidade do Parque, embora majestosa, ela é hoje apenas uma amostra da que no passado cobria a região correspondente ao estado do Paraná, no qual se encontra o Parque.

No parque brasileiro passei um dia. Caminhei no único percurso aberto aos visitantes, que tem cerca de 1.5 km de extensão (recomendado para o período matinal), para o qual somos levados de autocarro. Ao longo deste, seguindo o leito do rio, vamo-nos apercebendo da dimensão das cataratas, em semicírculo, com cerca de 2.700 metros de extensão. Normalmente, toda esta extensão é preenchida com 275 cascatas, com alturas variáveis entre os 40 e os 80 metros.
A origem destas cataratas remonta a cerca de 225.000.000 de anos atrás, por um fenómeno vulcânico que provocou um derrame de lava basáltica.
O nome do rio e das cataratas, Iguaçu, é de origem Guarani, e significa “água grande”. Os Guarani, povo indígena que aqui vive há menos de um milénio, tem uma lenda acerca da origem das cataratas, fantasiosa, como todas as lendas.
Em 1542, um oficial castelhano que na altura percorreu o Rio da Prata em direcção ao Paraguai, terá sido o primeiro europeu a observar esta maravilha da natureza, tendo na ocasião feito um relato empolgado do que viu.
Mas, devido a uma seca, nesta altura as grandiosas cataratas do Iguaçu estão reduzidas a uma expressão mínima. Dizem-me que o caudal actual é o menor registado desde 1978.
Voltando ao percurso no parque brasileiro, por ser bastante panorâmico, apercebo-me da ausência da água nas escarpas do lado da Argentina. Contudo, no limite do percurso está o ponto mais espectacular das cataratas, chamado de Garganta do Diabo. Aqui, a quantidade de água que se despenha do plano superior do rio para o inferior, é ainda suficiente para impressionar os visitantes. A propósito destes, surpreendo-me com a quantidade, explicada pelo facto de, quer no Brasil quer na Argentina, estarem a decorrer férias escolares. Assim, apesar de haver muitos estrangeiros, a maioria dos visitantes neste período do ano são brasileiros e argentinos.
Dos três dias que passei nos parques, aquele em que havia mais gente, no lado argentino, disseram-me que entraram cerca de 5.500 pessoas.
Após a visita ao parque brasileiro, tive ainda a oportunidade para visitar um parque de aves, privado, situado junto à entrada do Parque Nacional.
Embora nos parques das cataratas se encontrem aves com alguma frequência, em liberdade, no Parque das Aves podemos vê-las, em cativeiro, em melhores condições. Aparentemente, as aves aqui expostas são bem tratadas, nos limites possíveis da vida em cativeiro.
Aqui existem inúmeras espécies, quer desta quer doutras regiões. As que mais chamam a atenção são as mais coloridas, como os papagaios, araras e tucanos. Alguns destes deixam-se mesmo acariciar pelos visitantes, o que os torna alvo de mais atenção.

Tendo-me posteriormente mudado para a cidade argentina, Puerto Iguazu, passei dois outros dias a percorrer diversos passeios no parque argentino.
Este está igualmente bem organizado, e os visitantes podem utilizar um pequeno comboio que os transporta a vários pontos do parque, a partir dos quais seguem a pé para os percursos assinalados. Destes, destaco dois: o da Garganta do Diabo, que do lado argentino termina quase em cima da cascata, a uma curta centena de metros de distancia, ao nível superior do rio. Esta perspectiva é muito diferente da que se tem do lado do Brasil, onde o percurso termina a uma distância bastante maior da cascata, e a um nível inferior.
Voltando à plataforma final do percurso da Garganta do Diabo, na Argentina, que deve ser visitado à tarde, e o qual fiz por duas vezes, permite ocasionalmente um espectáculo extraordinário, que tive a felicidade de presenciar, aquando da minha primeira visita: refiro-me à presença de pequenas aves, chamadas em castelhano “vencejos de cascada”, aparentemente só existentes neste parque, parecidas com as andorinhas, tanto na forma como no tamanho. O que estas pequenas aves têm de extraordinário é que, nidificam e vivem quase sempre por detrás das cortinas de água das cascatas, e quando estão próximas, voam vertiginosamente, em bandos (com centenas de indivíduos), como se executassem danças sincronizadas, nas proximidades das cascatas.
O outro percurso feito por mim que relevo, é o Macuco, cujo nome é proveniente de uma outra ave aqui existente. Este é um percurso bastante mais longo que os restantes, com cerca de 3.500 metros para cada lado, cujo piso é em terra, e sem qualquer apoio logístico. Isto significa que, ao entrarmos nele, ficamos por nossa conta e risco no meio da selva. Foi o que fiz, tendo caminhado neste local durante cerca de três horas, tal como algumas dezenas de outros visitantes, com os quais me cruzei, bem como algumas outras espécies animais. Este percurso culmina num ponto elevado, do qual temos uma vista ampla sobre a selva e o rio Iguaçu, já depois das cataratas. Neste ponto, existe uma pequena cascata, agora quase seca, com um lago.
A propósito dos percursos definidos para os visitantes nestes parques, no da Argentina, os principais são em plataformas metálicas, perfuradas, sobrelevadas em relação ao terreno.
Neste ambiente propicio à tranquilidade, para além da pressão humana que nalgumas épocas do ano é grande, identifiquei um factor de desequilíbrio, que é o de helicópteros que aqui voam com visitantes, cujo ruído dos motores é claramente incómodo. De referir que estes apenas existem no território brasileiro.
À parte os passeios descritos, outros existem, organizados por empresas privadas. Os mais atraentes são os de barco, pelo rio mas, devido à seca, quase todos estão cancelados, já que o nível de água do rio está demasiado baixo.

Outra atracção desta região, no Brasil, que não visitei, é a grande barragem hidroeléctrica de Itaipu, situada a poucas dezenas de quilómetros depois das cataratas, no rio Paraná. A produção de energia eléctrica desta barragem satisfaz cerca de 25% das necessidades de todo o Brasil, e mais de 90% do Paraguai, países responsáveis pelo projecto.

Acerca dos dois rios principais da região, o Iguaçu e o Paraná, de referir que são povoados por alguns peixes de grande envergadura. Os mais conhecidos, por serem servidos pelos restaurantes da região, são o Surubi e o Dourado. Qualquer deles atinge frequentemente um peso de várias dezenas de quilos, e mais de um metro de comprimento.
Provei ambos, e o meu preferido é o Surubi, peixe saboroso, de carne consistente, e sem espinhas.
A propósito de gastronomia, tive esta semana o meu primeiro teste de carne argentina: sem que tivesse sido previamente planeado, almocei num dos restaurantes do Parque, em regime de buffet. Dele fazia parte a “parrilla”, churrasco correspondente ao rodízio do Brasil. A qualidade da carne era muito boa, pelo que já estou a pensar em novos testes, esses sim, previamente planeados, em Buenos Aires.

Deixei para último lugar, nesta região, as duas cidades onde estive. Tanto Foz do Iguaçu, no Brasil, como Puerto Iguazu, na Argentina, são cidades sem encanto particular. A primeira é bastante maior e mais populosa que a segunda mas, ambas parecem sobreviver à sombra do que a natureza proporcionou à região, e que aqui traz a maioria dos visitantes: as cataratas.
Ambas as cidades são caracterizadas por estarem em área fronteiriça, com influências culturais óbvias, e com canais comerciais que servem os residentes dos três países vizinhos. Neste aspecto, o Paraguai parece ser o que melhor explora as oportunidades comerciais, por isenções fiscais, o que faz com que exista contrabando de mercadorias nas fronteiras.
Previamente exclui o Paraguai do meu roteiro de viagem, e aqui ouvi várias referências de riscos para aqueles que lá se deslocam, nesta fronteira.
Do Paraguai, apenas vi o que se observa do local onde a Argentina tem o seu marco de fronteira, junto à confluência do rio Iguaçu com o Paraná, do qual também se observa o Brasil. Que me lembre, esta é a primeira fronteira tripla em que estive.

Agora, depois de 52 dias passados no Brasil, deixei o mundo da lusofonia e entrei no do castelhano. Espero melhorar os meus conhecimentos desta língua, já que nos próximos meses a vou utilizar diariamente.
Depois desta imersão na natureza, vou voltar aos ambientes urbanos, desta vez numa metrópole de classe especial:
Buenos Aires, aqui vou eu!